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ResumosSaúde das Populações · Cap. 11

Saúde Materno-Infantil e Evolução dos Cuidados de Saúde

8 min de leitura

Saúde materno-infantil como indicador populacional

A saúde materno-infantil reflete condições sociais, sanitárias, económicas, ambientais e a organização dos cuidados. Mortalidade infantil, mortalidade neonatal, baixo peso à nascença, prematuridade, mortalidade materna e assistência ao parto são indicadores sensíveis de desenvolvimento, equidade e desempenho do sistema de saúde.

Portugal apresenta mortalidade infantil muito baixa em comparação internacional, próxima de países de alto rendimento. Este resultado resulta de melhorias em saneamento, nutrição, educação feminina, vacinação, cuidados pré-natais, assistência ao parto, neonatologia, planeamento familiar e cobertura do SNS.

Indicadores principais

IndicadorDefinição
Nado-vivoProduto da conceção que mostra sinais de vida após expulsão ou extração
Mortalidade fetalMorte antes da expulsão completa, segundo critérios de idade gestacional ou peso
Mortalidade neonatal precoceÓbitos de nados-vivos nos primeiros 7 dias
Mortalidade neonatalÓbitos de nados-vivos antes dos 28 dias
Mortalidade pós-neonatalÓbitos dos 28 dias até antes de 1 ano
Mortalidade infantilÓbitos antes de 1 ano por 1000 nados-vivos
Mortalidade em menores de 5 anosÓbitos antes dos 5 anos por 1000 nados-vivos
Mortalidade maternaMorte durante gravidez ou até 42 dias após término, por causas relacionadas ou agravadas pela gravidez
Baixo peso à nascençaPeso ao nascer inferior a 2500 g
PrematuridadeNascimento antes das 37 semanas de gestação

Mortalidade infantil

A mortalidade infantil é um indicador sintético de condições de vida e cuidados. Em países de baixo rendimento, é fortemente influenciada por prematuridade, infeções, asfixia, diarreia, malária, desnutrição e falta de cuidados. Em países de alto rendimento, o peso desloca-se para prematuridade extrema, malformações congénitas, complicações perinatais e causas externas.

Determinantes:

  • saúde e idade materna;
  • cuidados pré-natais;
  • nutrição materna;
  • tabaco, álcool e outras exposições;
  • condições socioeconómicas;
  • assistência ao parto;
  • cuidados neonatais;
  • vacinação;
  • saneamento e habitação;
  • educação;
  • acesso atempado a cuidados pediátricos.

Portugal reduziu de forma marcada a mortalidade infantil nas últimas décadas. A estabilização em valores muito baixos torna cada morte mais dependente de fatores complexos, como prematuridade extrema, malformações, idade materna avançada, gravidez múltipla, desigualdades e qualidade dos cuidados perinatais.

Mortalidade infantil e neonatal: valores globais

IndicadorValor destacado
Meta ODS para mortalidade antes dos 5 anos≤ 25/1000 nados-vivos até 2030
Meta ODS para mortalidade neonatal≤ 12/1000 nados-vivos até 2030
Mortalidade antes dos 5 anos, mundo93,0/1000 em 1990; 37,7/1000 em 2019
Redução da mortalidade antes dos 5 anos59%
Mortes antes dos 5 anos, mundo12,5 milhões em 1990; 5,2 milhões em 2019
Mortalidade neonatal, mundo36,6/1000 em 1990; 17,5/1000 em 2019
Mortes neonatais, mundo5,0 milhões em 1990; 2,4 milhões em 2019
Peso das mortes neonatais nas mortes antes dos 5 anos40% em 1990; 47% em 2019
Países que já cumpriam a meta ODS de mortalidade antes dos 5 anos em 2019122/195
Países em risco de falhar a meta neonatal63
Tendência atual, 2020-203048,1 milhões de mortes antes dos 5 anos
Se as metas ODS forem cumpridascerca de 11 milhões de mortes antes dos 5 anos evitadas entre 2020 e 2030

Em 2019, a África subsariana apresentava mortalidade antes dos 5 anos de 75,8/1000, aproximadamente 1 em 13 crianças. Concentrava 55% das mortes globais antes dos 5 anos, enquanto o Sul da Ásia concentrava 26%. Cinco países somavam 49% das mortes globais antes dos 5 anos.

Mortalidade neonatal e perinatal

A mortalidade neonatal concentra uma grande parte da mortalidade infantil quando esta é baixa. Está fortemente ligada a prematuridade, baixo peso, malformações, complicações do parto, infeções neonatais e qualidade dos cuidados obstétricos e neonatais.

A mortalidade perinatal inclui eventos em torno do nascimento e é sensível à vigilância da gravidez, referenciação, qualidade do parto, monitorização fetal, cuidados intensivos neonatais e registo de mortes fetais.

Prematuridade e baixo peso à nascença

A prematuridade é definida por nascimento antes das 37 semanas de gestação.

CategoriaIdade gestacional
Prematuridade extrema< 28 semanas
Muito prematuro28-31 semanas
Prematuro moderado32-33 semanas
Prematuro tardio34-36 semanas

O baixo peso à nascença, inferior a 2500 g, pode resultar de prematuridade, restrição de crescimento intrauterino ou ambos. Associa-se a maior mortalidade, infeções, dificuldades respiratórias, alterações neurodesenvolvimentais e risco cardiometabólico futuro.

Em Portugal, o baixo peso à nascença foi referido como 9,0% em 2019, acima da média europeia apresentada nos materiais.

Determinantes de prematuridade e baixo peso:

  • idade materna muito jovem ou avançada;
  • gravidez múltipla;
  • tabaco;
  • infeções;
  • hipertensão e pré-eclâmpsia;
  • diabetes;
  • baixo índice de massa corporal ou obesidade;
  • stress e adversidade social;
  • trabalho pesado ou condições laborais;
  • cuidados pré-natais tardios ou insuficientes;
  • técnicas de procriação medicamente assistida.

Mortalidade materna

A mortalidade materna mede mortes relacionadas com a gravidez, parto ou puerpério. É rara em países de alto rendimento, mas cada caso deve ser analisado por potencial evitabilidade.

Causas diretas incluem hemorragia, pré-eclâmpsia/eclâmpsia, tromboembolismo, infeção, complicações anestésicas e aborto inseguro. Causas indiretas incluem agravamento de doença cardíaca, renal, metabólica, respiratória ou mental pela gravidez.

A desigualdade internacional é extrema: nos exemplos dos materiais, a razão de mortalidade materna era de 1360/100 000 nados-vivos na Serra Leoa e de 3/100 000 na Finlândia.

Fatores de risco:

  • idade materna avançada;
  • obesidade;
  • hipertensão;
  • diabetes;
  • doença cardiovascular;
  • migração vulnerável;
  • atraso no acesso;
  • menor literacia;
  • desigualdade socioeconómica;
  • falhas de referenciação;
  • gravidez múltipla.

Em Portugal, a mortalidade materna é baixa, mas variações anuais podem parecer grandes porque os números absolutos são pequenos. A análise deve incluir tendências plurianuais e revisão clínica dos casos.

Assistência ao parto

A assistência qualificada ao parto é determinante para reduzir mortalidade materna e neonatal. Inclui vigilância adequada, capacidade de resposta a hemorragia, sofrimento fetal, parto obstruído, infeção, hipertensão grave, prematuridade e necessidade de cesariana.

Portugal concentra a maioria dos partos em unidades hospitalares, com acesso a obstetrícia, anestesia, neonatologia e referenciação. A centralização pode melhorar segurança em situações complexas, mas exige transporte, proximidade e equidade territorial.

Cesariana

A cesariana salva vidas quando clinicamente indicada, mas taxas elevadas podem refletir medicalização, práticas institucionais, idade materna, gravidez de risco, preferência, medo médico-legal ou organização dos serviços. Cesarianas desnecessárias aumentam risco cirúrgico, infeção, hemorragia, complicações anestésicas, alterações em gravidezes futuras e custos.

Em Portugal, a taxa de cesarianas foi apresentada como 36% em 2019. Uma das medidas discutidas nos materiais foi reduzir o pagamento quando a proporção de cesarianas ultrapassava 25%, ou 27% nos hospitais de apoio perinatal diferenciado.

Medidas para reduzir cesarianas não indicadas:

  • auditoria clínica;
  • divulgação transparente de taxas por instituição;
  • formação em parto vaginal instrumental e condução do trabalho de parto;
  • apoio contínuo durante parto;
  • informação equilibrada às grávidas;
  • revisão de incentivos organizacionais;
  • protocolos baseados na evidência.

Idade materna e comportamentos reprodutivos

O adiamento da maternidade aumenta proporção de partos em mulheres com 35 ou mais anos. A idade materna avançada associa-se a maior risco de infertilidade, anomalias cromossómicas, diabetes gestacional, hipertensão, cesariana, prematuridade e complicações obstétricas, embora o risco individual dependa do estado de saúde e cuidados.

Determinantes do adiamento:

  • escolaridade e carreira;
  • instabilidade laboral;
  • habitação;
  • rendimento;
  • políticas de parentalidade;
  • acesso a creches;
  • normas culturais;
  • disponibilidade de procriação medicamente assistida.

A saúde reprodutiva é influenciada por condições sociais e não apenas por decisões individuais.

Saúde cardiovascular antes e durante gravidez

Fatores de risco antes da gravidez, como obesidade, hipertensão, diabetes, tabaco e sedentarismo, influenciam complicações maternas e neonatais. A gravidez é uma janela de oportunidade para promoção da saúde, mas também revela risco cardiometabólico futuro.

Complicações como diabetes gestacional e pré-eclâmpsia associam-se a maior risco posterior de diabetes tipo 2 e doença cardiovascular. A continuidade entre obstetrícia, cuidados primários e prevenção cardiovascular é essencial.

Cuidados pré-natais

Cuidados pré-natais permitem datar gravidez, identificar risco, monitorizar crescimento fetal, rastrear infeções, promover vacinação, aconselhar alimentação, reduzir tabaco e álcool, preparar parto e referenciar complicações.

Qualidade dos cuidados pré-natais inclui:

  • início atempado;
  • número adequado de contactos;
  • conteúdo clínico apropriado;
  • respeito e comunicação;
  • acesso a ecografia e análises;
  • articulação com maternidade;
  • atenção a violência, saúde mental e condições sociais.

Saúde infantil e vacinação

A vacinação infantil reduziu dramaticamente mortalidade e morbilidade por doenças transmissíveis. A manutenção de elevadas coberturas protege crianças vacinadas e pessoas vulneráveis por imunidade de grupo.

Além da vacinação, a saúde infantil inclui vigilância do crescimento, desenvolvimento, nutrição, visão, audição, saúde oral, prevenção de acidentes, saúde mental, proteção contra violência e apoio parental.

Desigualdades em saúde materno-infantil

Mesmo com bons indicadores nacionais, existem desigualdades por escolaridade, rendimento, território, migração, idade materna, literacia e acesso. Podem manifestar-se em:

  • início tardio de vigilância pré-natal;
  • menor adesão a consultas;
  • maior exposição a tabaco ou insegurança alimentar;
  • menor acesso a planeamento familiar;
  • gravidez não planeada;
  • baixo peso à nascença;
  • prematuridade;
  • dificuldade de transporte;
  • barreiras linguísticas;
  • menor utilização de cuidados pediátricos preventivos.

A análise de médias nacionais deve ser complementada por indicadores desagregados e intervenção proporcional à necessidade.

Evolução dos cuidados de saúde

A melhoria dos cuidados materno-infantis em Portugal resultou de mudanças estruturais:

  • expansão do SNS;
  • cuidados de saúde primários;
  • planeamento familiar;
  • vigilância pré-natal;
  • vacinação;
  • assistência hospitalar ao parto;
  • neonatologia;
  • referenciação perinatal;
  • melhoria da educação feminina;
  • saneamento e condições de vida;
  • redução da pobreza extrema.

O desafio atual é manter ganhos, reduzir iniquidades, responder ao envelhecimento materno, integrar saúde mental perinatal, garantir proximidade segura e proteger cuidados em crises.

Síntese essencial

  • Saúde materno-infantil é marcador sensível de condições sociais e desempenho do sistema.
  • Mortalidade infantil, neonatal, perinatal e materna medem dimensões diferentes.
  • Portugal tem baixa mortalidade infantil, mas persistem desafios de prematuridade, idade materna, cesarianas e desigualdades.
  • Prematuridade e baixo peso têm consequências imediatas e ao longo da vida.
  • A mortalidade materna baixa exige análise cuidadosa de cada caso e séries plurianuais.
  • Cuidados pré-natais, assistência ao parto, neonatologia, vacinação e proteção social sustentam os ganhos.

Resumo escrito por estudantes para apoio ao estudo. Não substitui a bibliografia nem as indicações dos docentes da unidade curricular.