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ResumosSaúde das Populações · Cap. 06

Doenças Transmissíveis Emergentes e Reemergentes

8 min de leitura

Doença transmissível, infeção e doença

Uma doença transmissível é causada por um agente infeccioso ou pelas suas toxinas e pode ser transmitida de um hospedeiro, reservatório ou fonte para uma pessoa suscetível, direta ou indiretamente.

Infeção corresponde à entrada, desenvolvimento ou multiplicação de um agente no hospedeiro. Doença corresponde a lesão, disfunção ou manifestação clínica resultante dessa infeção. Nem toda a infeção causa doença. Uma pessoa pode estar infetada, colonizada ou portadora sem sintomas e ainda assim transmitir.

Tríade epidemiológica

A ocorrência de doença transmissível depende da interação entre agente, hospedeiro e ambiente.

ComponenteConteúdo
AgenteVírus, bactérias, parasitas, fungos, priões, toxinas
HospedeiroPessoa suscetível, imunidade, idade, comorbilidade, estado nutricional
AmbienteClima, saneamento, habitação, densidade, mobilidade, sistema de saúde, vetores

A mesma exposição pode ter efeitos diferentes consoante dose, via de transmissão, imunidade prévia, vacinação, idade, gravidez, estado nutricional, imunossupressão e acesso a cuidados.

Agente infeccioso

Os agentes infecciosos variam em dose necessária, resistência ambiental, transmissibilidade, período de incubação, duração de infecciosidade, virulência e suscetibilidade a antimicrobianos.

CaracterísticaSignificado
Dose infecciosaQuantidade de agente necessária para estabelecer infeção
ContagiosidadeFacilidade com que se transmite entre hospedeiros
VirulênciaCapacidade de causar doença grave entre infetados
PatogenicidadeCapacidade de causar doença entre infetados
Resistência ambientalCapacidade de sobreviver fora do hospedeiro
InfecciosidadeCapacidade de invadir e multiplicar-se no hospedeiro

Patogéneos verdadeiros podem causar doença em grande parte dos suscetíveis. Patogéneos oportunistas tendem a causar doença sobretudo em imunodeprimidos, idosos, pessoas com quimioterapia, VIH, dispositivos invasivos ou doença crónica.

A microbiota humana tem dimensão populacional relevante: o número de bactérias no corpo humano é da mesma ordem de grandeza do número de células humanas e a massa total estimada ronda 0,2 kg. A doença infecciosa não depende apenas do agente isolado, mas também do equilíbrio entre microrganismos, hospedeiro e ambiente.

Hospedeiro e suscetibilidade

O hospedeiro é a pessoa ou animal que alberga o agente. A suscetibilidade depende de:

  • imunidade natural ou adquirida;
  • vacinação;
  • idade;
  • gravidez;
  • nutrição;
  • comorbilidades;
  • imunossupressão;
  • barreiras anatómicas;
  • microbiota;
  • comportamentos;
  • acesso a prevenção e tratamento.

A imunidade de grupo reduz a probabilidade de uma pessoa suscetível contactar com um infetado, porque parte suficiente da população está imune. É especialmente importante para proteger pessoas que não podem ser vacinadas ou não respondem adequadamente à vacinação.

Reservatório, fonte, veículo e vetor

O reservatório é o habitat natural onde o agente vive, cresce ou se multiplica. Pode ser humano, animal ou ambiental. A fonte é a origem imediata da infeção para o hospedeiro. O veículo transporta o agente, como água, alimento ou sangue. O vetor é um organismo vivo que transmite o agente.

TermoExemplo
Reservatório humanoSarampo, sífilis, VIH
Reservatório animalRaiva, influenza zoonótica, brucelose
Reservatório ambientalLegionella em sistemas de água
VeículoÁgua contaminada na cólera
VetorMosquito no dengue ou malária; carraça na doença de Lyme

Modos de transmissão

Transmissão direta

A transmissão direta ocorre por contacto imediato entre fonte e hospedeiro suscetível.

Exemplos:

  • contacto pele a pele, como escabiose;
  • contacto sexual, como sífilis e VIH;
  • mordedura, como raiva;
  • gotículas respiratórias de curto alcance, como influenza;
  • transmissão vertical, da mãe para o feto ou recém-nascido.

Transmissão indireta

A transmissão indireta ocorre através de veículos, vetores, fómites, ambiente, aerossóis ou poeiras.

Exemplos:

  • transmissão fecal-oral por água ou alimentos, como cólera e giardíase;
  • fómites contaminados;
  • aerossóis em ambientes interiores mal ventilados;
  • vetores como mosquitos e carraças;
  • exposição ambiental, como febre Q ou Legionella.

R0 e Rt

O R0 é o número médio de infeções secundárias produzidas por um caso numa população totalmente suscetível, sem medidas de controlo. O Rt é o número efetivo de reprodução num momento concreto, considerando imunidade, comportamento e medidas em curso.

ValorInterpretação
R ou Rt > 1A transmissão tende a crescer
R ou Rt = 1A transmissão tende a manter-se
R ou Rt < 1A transmissão tende a diminuir

O R0 não é uma propriedade fixa do agente. Depende também de densidade populacional, contactos sociais, ambiente, ventilação, comportamentos, vacinação e resposta de saúde pública.

Endemia, epidemia, pandemia e surto

TermoDefinição
EndemiaPresença constante ou ocorrência habitual de uma doença numa população ou área
SurtoAumento localizado de casos acima do esperado, frequentemente em local ou grupo definido
EpidemiaAumento de casos acima do esperado numa população, região ou período
PandemiaEpidemia com disseminação internacional ou global

A fronteira entre surto e epidemia pode ser operacional. Um surto numa escola, restaurante ou hospital pode ter implicações epidémicas se houver disseminação comunitária.

Doenças emergentes

Doenças infecciosas emergentes são doenças novas em humanos, doenças anteriormente raras que aumentam rapidamente ou doenças conhecidas mas recentemente reconhecidas como infecciosas.

Exemplos:

  • SARS-CoV-2;
  • VIH;
  • novos subtipos de influenza;
  • Ébola em novos contextos;
  • mpox em cadeias de transmissão internacionais;
  • Zika com síndrome congénita;
  • Helicobacter pylori reconhecido como causa de úlcera péptica;
  • Nipah em surtos zoonóticos.

Nipah

O vírus Nipah é uma zoonose associada a morcegos frugívoros, com transmissão possível por alimentos contaminados, contacto com animais ou transmissão pessoa-pessoa. Pode causar encefalite e doença respiratória grave. A letalidade é elevada, frequentemente referida entre 40% e 75%, embora a transmissibilidade sustentada seja geralmente limitada.

Zika

O vírus Zika foi identificado em 1947 e emergiu como problema global no século XXI. A associação a microcefalia e outras alterações neurológicas fetais alterou a perceção do risco. A transmissão por mosquitos Aedes, transmissão sexual e mobilidade internacional mostraram a importância de vigilância, saúde reprodutiva e comunicação de risco.

Doenças reemergentes

Doenças reemergentes são doenças conhecidas que tinham diminuído e voltam a constituir problema de saúde pública.

Exemplos:

  • sarampo;
  • tuberculose;
  • cólera;
  • malária;
  • sífilis e sífilis congénita;
  • escabiose em surtos institucionais;
  • doenças transmitidas por vetores em novas áreas.

Sarampo

O sarampo é altamente contagioso e prevenível por vacinação. A diminuição da cobertura vacinal, interrupções durante a pandemia, hesitação vacinal, desigualdades de acesso e mobilidade internacional favoreceram o aumento de casos na Região Europeia. O sarampo exige cobertura muito elevada para manter imunidade de grupo.

Alguns números ajudam a fixar a ordem de grandeza da reemergência infecciosa:

ExemploValor destacado
Sarna em cuidados primários, Espanha131 casos/milhão em 2011; mais de 6300/milhão em 2023
Vírus Nipahletalidade frequentemente referida entre 40% e 75%
Vírus Zikaidentificado em 1947; emergência internacional marcada a partir de 2007
Sarampo, Região Europeia127 350 casos em 2024, cerca do dobro de 2023 e maior número desde 1997
Sarampo, Região Europeiacerca de 216 000 casos em 1997; mínimo de 4440 em 2016
Sarampo, UE/EEE35 212 casos em 2024; 3973 em 2023

Tuberculose

A tuberculose reemerge ou persiste quando há pobreza, sobrelotação, VIH, diabetes, migração vulnerável, prisões, sem-abrigo, atraso diagnóstico, resistência antimicrobiana e dificuldades de adesão terapêutica. É simultaneamente infeção, doença social e marcador de desigualdade.

Cólera

A cólera reaparece em contextos de água insegura, saneamento deficiente, conflito, deslocação populacional, catástrofes e colapso de infraestruturas. O controlo exige água segura, saneamento, tratamento rápido, vigilância e, em contextos indicados, vacinação oral.

Fatores que favorecem emergência e reemergência

FatorMecanismo
Crescimento populacionalMais contactos e pressão sobre serviços
UrbanizaçãoDensidade, saneamento insuficiente, mobilidade
Invasão de habitatsMaior contacto humano-animal
Alterações climáticasAlteração de vetores, eventos extremos, insegurança alimentar
Produção animal intensivaZoonoses e uso de antimicrobianos
Viagens internacionaisDisseminação rápida de agentes
Conflitos e deslocaçõesInterrupção de vacinação, água e cuidados
Resistência antimicrobianaFalência terapêutica e transmissão prolongada
Envelhecimento e imunossupressãoMais suscetibilidade
Hesitação vacinalPerda de imunidade coletiva

Prevenção e controlo

O controlo de doenças transmissíveis pode atuar em três pontos: agente ou reservatório, transmissão e suscetibilidade do hospedeiro.

Ponto de intervençãoMedidas
Agente/reservatórioTratamento, desinfeção, controlo animal, eliminação de reservatórios ambientais
TransmissãoÁgua segura, saneamento, higiene, ventilação, isolamento, controlo de vetores, segurança alimentar
SuscetibilidadeVacinação, profilaxia, nutrição, proteção de vulneráveis, educação

Outras medidas:

  • notificação obrigatória;
  • investigação de casos e contactos;
  • rastreio e tratamento de contactos;
  • isolamento ou quarentena quando adequado e proporcional;
  • vigilância laboratorial;
  • comunicação de risco;
  • legislação e normas técnicas;
  • planeamento de surtos institucionais;
  • controlo de infeções em cuidados de saúde.

Vacinação

A vacinação é uma das intervenções de saúde pública com maior impacto. Reduz doença, complicações, mortalidade, transmissão e custos. O Programa Nacional de Vacinação assenta em gratuitidade, universalidade, equidade e elevada cobertura.

O sucesso vacinal pode tornar a doença invisível, reduzindo a perceção de risco e aumentando hesitação. A manutenção da confiança exige comunicação clara, vigilância de segurança, acesso fácil, profissionais preparados e resposta a desinformação.

Resistência antimicrobiana

A resistência antimicrobiana surge por pressão seletiva associada ao uso de antibióticos em humanos, animais e agricultura. Agrava mortalidade, internamentos, custos e complexidade terapêutica.

Medidas essenciais:

  • prescrição adequada;
  • diagnóstico microbiológico quando indicado;
  • prevenção de infeções;
  • vacinação;
  • higiene das mãos e controlo de infeção;
  • vigilância de resistências;
  • regulação do uso veterinário e agrícola;
  • desenvolvimento de novos antimicrobianos e alternativas.

Síntese essencial

  • Doença transmissível resulta da interação entre agente, hospedeiro e ambiente.
  • Infeção não é sinónimo de doença, e portadores assintomáticos podem transmitir.
  • R0 e Rt descrevem potencial e dinâmica de transmissão, mas dependem do contexto.
  • Doenças emergentes e reemergentes refletem ecologia, mobilidade, clima, desigualdade, conflitos, vacinação e sistemas de saúde.
  • O controlo atua sobre reservatório, transmissão e suscetibilidade.
  • Vacinação, vigilância, saneamento, segurança alimentar, controlo de vetores e uso racional de antibióticos são pilares da resposta.

Resumo escrito por estudantes para apoio ao estudo. Não substitui a bibliografia nem as indicações dos docentes da unidade curricular.