Gestor UniversitárioComissão de Curso · FMUP 2025–2031Entrar
ResumosHistologia I · Cap. 09

Tecido nervoso I: neurónios, glia e meninges

24 min de leitura

1. O neurónio

1.1. Constituição e características gerais

O tecido nervoso contém neurónios, que recebem, integram e transmitem sinais, e células da glia, com funções de suporte, regulação e defesa. A matriz extracelular é relativamente escassa, mas especializada, sobretudo no SNC; não está ausente. As células e os seus prolongamentos ficam próximos, separados por espaços com líquido intersticial cuja composição iónica é essencial à atividade elétrica. A matriz participa na adesão e na regulação das interações celulares.

O neurónio tem três partes:

  • Corpo celular (pericário ou soma): contém o núcleo e a maior parte dos organelos.
  • Dendrites: prolongamentos, geralmente múltiplos e ramificados, que recebem os sinais.
  • Axónio: prolongamento que conduz sinais até outras células. Emerge habitualmente pelo cone axonal, transição do soma, seguido do segmento inicial, especializado no desencadeamento do potencial de ação; prolonga-se até às arborizações terminais. As duas regiões proximais não são sinónimas.

O neurónio é uma célula altamente polarizada: os sinais entram pelas dendrites e pelo corpo e saem pelo axónio. É particularmente volumosa, sobretudo por causa das árvores dendrítica e axonal, e muito diferenciada, com capacidade quase nula de se dividir. A sua estrutura e função dependem da organização em circuitos e têm grande plasticidade, moldada pela atividade.

1.2. Corpo celular

  • Núcleo grande, esférico, central e claro (cromatina dispersa), com nucléolo muito evidente: sinal de uma síntese proteica intensa.
  • Corpos de Nissl: acumulações de RER e polirribossomas, basófilas, evidenciadas por violeta de cresilo, tionina ou azul de toluidina. Abundam no soma e nas dendrites proximais, refletindo síntese proteica intensa; faltam no cone axonal e no axónio. Nas dendrites também existe tradução local de mRNA relevante para a plasticidade sináptica, mas esta função não define, por si só, toda a substância de Nissl.
  • Golgi desenvolvido, muitas mitocôndrias e lisossomas; com a idade acumula-se lipofuscina.

No adulto, o encéfalo representa aproximadamente 2 % da massa corporal e cerca de 20 % do consumo de oxigénio e da energia em repouso, valores aproximados e dependentes das condições fisiológicas. A elevada exigência relaciona-se com gradientes iónicos, neurotransmissão, síntese proteica e transporte intracelular. A PET com análogos radioativos da glicose avalia padrões regionais de captação e metabolismo; pode contribuir para o estudo de alterações, incluindo tumores, mas o sinal não identifica isoladamente uma causa específica.

1.3. Neurópilo

Grande parte do volume da substância cinzenta corresponde ao neurópilo, rede de prolongamentos neuronais e gliais entre os corpos celulares e vasos. Em H&E apresenta-se como fundo finamente fibrilhar e eosinófilo; não se individualizam com segurança a maioria dos prolongamentos finos. A microscopia eletrónica permite reconhecer perfis de axónios, dendrites, terminais sinápticos e prolongamentos gliais pela sua ultraestrutura.

1.4. Dendrites

As dendrites são prolongamentos de calibre variável, mais largos proximalmente e mais finos nas ramificações distais, em número variável, cujo diâmetro diminui à medida que se afastam do corpo celular. São o local preferencial das sinapses: recebem os impulsos dos axónios e integram-nos no espaço e no tempo. A forma da árvore dendrítica (número de ramos, ordens de ramificação, comprimento) varia muito entre tipos de neurónios e determina o modo de integração.

Muitas dendrites têm espinhas dendríticas: pequenos prolongamentos da membrana onde se fazem sinapses. As espinhas formam-se e retraem-se com a atividade, o que altera o número de sinapses. É uma das bases celulares da aprendizagem e da memória.

1.5. Axónio

  • Habitualmente, um neurónio possui um axónio; esta é a organização dos tipos neuronais aqui estudados.
  • O segmento inicial, distal ao cone axonal, tem elevada densidade de canais de Na^{+} dependentes da voltagem e é o local habitual de iniciação do potencial de ação. Estas regiões não têm corpos de Nissl.
  • Pode ser mielínico ou amielínico.
  • Ao contrário das dendrites, tem calibre relativamente uniforme nos segmentos principais, com variações nas colaterais, terminais e regiões especializadas; o diâmetro varia de axónio para axónio e determina a velocidade de condução.
  • Pode emitir colaterais perpendiculares para várias regiões e termina em arborizações terminais.
  • Não apresenta as espinhas características das dendrites. Há contactos sinápticos em botões terminais nas extremidades das arborizações e em botões de passagem (en passant) ao longo de segmentos não mielinizados de diferentes axónios.

A árvore axonal tem plasticidade estrutural: ramos e contactos sinápticos podem formar-se, estabilizar-se ou regredir. A extensão da remodelação depende do tipo neuronal, região, atividade e período de observação; um intervalo percentual sem estes parâmetros não é uma regra geral.

1.6. Classificação dos neurónios

Segundo o axónio (Golgi):

  • Golgi tipo I (neurónios de projeção): axónio longo, que sai da região de origem e ramifica noutra região do sistema nervoso. Exemplo: neurónios piramidais do córtex cerebral, motoneurónios.
  • Golgi tipo II (interneurónios, neurónios de circuito local): axónio curto, que ramifica junto ao próprio neurónio e modula a atividade local. Exemplo: células em cesto do córtex.

Segundo o número de prolongamentos:

  • Multipolares: várias dendrites e um axónio. São a grande maioria no sistema nervoso central.
  • Bipolares: uma dendrite e um axónio em polos opostos. Neurónios sensoriais da retina, do ouvido interno e da mucosa olfativa.
  • Pseudounipolares: um único prolongamento que se bifurca num ramo periférico e num ramo central, ambos com características de axónio. Neurónios sensoriais dos gânglios raquidianos.

1.7. Substância cinzenta e substância branca

  • Substância cinzenta: caracteriza-se pela presença de corpos celulares, dendrites, neurópilo e células gliais. Forma o córtex cerebral e cerebeloso e os núcleos; na medula espinhal fica no centro, em forma de H.
  • A substância branca é constituída predominantemente por axónios, muitos mielinizados, e glia, sobretudo oligodendrócitos e astrócitos fibrosos. Possui poucos corpos neuronais, em contraste com a cinzenta. Na medula fica principalmente à periferia; nos hemisférios cerebrais e cerebelo ocupa extensas regiões internas, coexistindo com núcleos profundos de substância cinzenta.

2. Citoesqueleto e transporte

2.1. Citoesqueleto

O neurónio tem elementos a grande distância do corpo celular e depende de um citoesqueleto abundante e dinâmico, formado por neurofilamentos (filamentos intermédios), neurotúbulos (microtúbulos) e actina. O citoesqueleto mantém a forma das árvores dendrítica e axonal, permite a sua adaptação e é a via do transporte de organelos e moléculas.

  • No axónio, os microtúbulos têm todos a mesma orientação, com a extremidade positiva voltada para os terminais. A proteína associada é a tau (MAPT).
  • Nas dendrites, os microtúbulos têm orientações mistas. A proteína associada é a MAP2.
Proteína tau e doença de Alzheimer Na doença de Alzheimer, a patologia de β-amiloide associa-se a alterações da tau, incluindo fosforilação anómala, menor estabilidade da ligação aos microtúbulos e agregação em emaranhados neurofibrilares. Os processos estão interligados, sem se reduzirem a uma cadeia causal única e universal. A tau total e fosforilada no LCR integram a avaliação de biomarcadores da doença.

2.2. Transporte axonal e dendrítico

Os organelos, vesículas, proteínas e mRNA são transportados ao longo dos microtúbulos nos dois sentidos:

  • Anterógrado, do corpo para as extremidades, pela proteína motora cinesina. Transporta vesículas com neurotransmissores e enzimas, e mitocôndrias.
  • Retrógrado, das extremidades para o corpo, pelo complexo dineína-dinactina. Transporta neurotrofinas captadas nos terminais e organelos envelhecidos (sobretudo mitocôndrias) para degradação nos lisossomas do corpo celular. As velocidades variam com a carga e o contexto; não é universalmente mais lento do que o anterógrado.

O transporte rápido desloca organelos membranares e vesículas, tanto anterogradamente (sobretudo cinesinas) como retrogradamente (dineína-dinactina). O transporte lento, predominantemente anterógrado, distribui componentes citosólicos e do citoesqueleto, com movimentos intercalados por pausas. Como ordem de grandeza, o rápido pode atingir centenas de milímetros por dia; as velocidades líquidas dependem da carga e não se devem aplicar os mesmos intervalos indistintamente aos dois sentidos.

Vírus e toxinas que usam o transporte axonal Diferentes agentes exploram o transporte neuronal. A raiva pode alcançar os corpos neuronais por transporte retrógrado após entrada periférica. Herpes simples e varicela-zóster utilizam transporte neuronal para atingir gânglios sensitivos e, após reativação, o sentido anterógrado até aos tecidos periféricos (herpes labial, zona). O poliovírus também pode utilizar transporte retrógrado em determinados contextos, sem ser a única via de neuroinvasão. A toxina tetânica é transportada retrogradamente nos neurónios motores e alcança circuitos inibitórios do SNC.

3. Sinapses

3.1. Sinapses químicas

A sinapse química é um contacto funcional entre dois neurónios (ou entre um neurónio e uma célula efetora) em que a informação passa num só sentido, por meio de um neurotransmissor. Tem três componentes:

  • Elemento pré-sináptico, geralmente um botão axonal com vesículas e mitocôndrias. A zona ativa organiza a preparação e fusão vesicular, com canais de Ca^{2+} e proteínas do aparelho de fusão, incluindo o complexo SNARE. As sinapsinas participam sobretudo na organização e mobilização das reservas vesiculares; não são um exemplo equivalente do mecanismo direto de fusão.
  • Fenda sináptica, com 20 a 30 nm.
  • Elemento pós-sináptico, geralmente uma dendrite ou espinha dendrítica, com uma densidade pós-sináptica rica em recetores e canais, organizados por proteínas como a PSD-95.

A maioria das sinapses é axodendrítica; as axossomáticas e as axoaxónicas também são frequentes.

Ao microscópio eletrónico distinguem-se dois tipos morfológicos:

  • Gray tipo I (assimétricas): a densidade pós-sináptica é mais espessa do que a pré-sináptica; vesículas redondas. A maioria é excitatória.
  • Gray tipo II (simétricas): densidades semelhantes; vesículas muitas vezes achatadas ou pleomórficas. A maioria é inibitória.

Não há, no entanto, uma correspondência rigorosa entre a morfologia e o neurotransmissor.

3.2. Sinapses elétricas

As sinapses elétricas são junções comunicantes, com passagem direta de corrente iónica entre células. Têm atraso de transmissão muito reduzido e são frequentemente bidirecionais, embora algumas apresentem transmissão preferencial num sentido. Ocorrem em diferentes circuitos, incluindo redes de interneurónios e contactos dendrodendríticos, contribuindo para sincronizar a atividade; não se limitam exclusivamente a essa disposição.

4. Métodos de estudo do tecido nervoso

Nenhuma técnica mostra sozinha o tecido nervoso; usam-se várias, complementares:

TécnicaO que mostraUso
H&ECorpos celulares de neurónios e glia; o neurópilo fica rosado e indistintoAnatomia patológica
Nissl (violeta de cresilo, tionina)Núcleos e corpos de Nissl: tamanho e densidade dos corpos celularesCitoarquitetura (delimitar camadas e núcleos)
Luxol fast blueMielina do sistema nervoso centralDoenças desmielinizantes; combina-se com H&E ou Nissl
Impregnação argênticaCitoesqueleto: neurofibrilhas e prolongamentosO neurópilo vê-se, mas não se sabe a que células pertence
Método de GolgiPequena fração de células intensamente impregnadas; soma e extensas porções dos prolongamentosMorfologia e ramificação celular
Imuno-histoquímicaProteínas específicas (GFAP, marcadores de neurotransmissores)Identificar tipos celulares
Microscopia eletrónicaProlongamentos, sinapses e organelosNão identifica o neurónio de origem
Traçadores anterógrados e retrógradosLigações entre regiões, aproveitando o transporte axonalEstudo de circuitos
Registo elétrico e injeção intracelular de corantesCombinação de função e morfologiaInvestigação

5. Células da glia

5.1. Características gerais

As células gliais são populações abundantes, com dimensão, proporção relativa, mobilidade e capacidade proliferativa variáveis entre regiões e tipos. Algumas proliferam ou mantêm precursores no adulto; outras, como oligodendrócitos maduros, são altamente diferenciadas. A maioria tem origem neuroectodérmica, incluindo a contribuição da crista neural no SNP; a micróglia, de linhagem mesodérmica, deriva de precursores do saco vitelino.

LocalizaçãoCélulas gliais
Sistema nervoso centralAstrócitos (e astrócitos modificados: pituícitos, glia de Müller, glia de Bergmann), oligodendrócitos, micróglia, células ependimárias
Sistema nervoso periféricoCélulas de Schwann, células satélite dos gânglios, glia entérica
EmbriãoGlia radial

Glia entérica (SNP): população própria do sistema nervoso entérico, no conjuntivo subepitelial, gânglios e camada muscular. Participa no suporte neuronal, microambiente e barreira intestinal. Partilha características com astrócitos, sem ser simplesmente um subtipo astrocitário do SNC.

5.2. Astrócitos

Os astrócitos estão entre as células gliais de maiores dimensões e são particularmente abundantes na substância cinzenta; os oligodendrócitos predominam em muitas regiões da branca. Têm perfis estrelados e ramificados, núcleo geralmente claro e filamentos intermédios, incluindo GFAP e vimentina. A GFAP é muito útil para evidenciar muitos astrócitos e prolongamentos, mas a expressão varia com subtipo, região e estado funcional, sem ser marcador necessário e exclusivo de todos. Distinguem-se habitualmente:

  • protoplasmáticos, na substância cinzenta: prolongamentos curtos, grossos e muito ramificados;
  • fibrosos, na substância branca: prolongamentos longos, finos e pouco ramificados, ricos em filamentos.

Muitos prolongamentos terminam em dilatações:

  • pés vasculares, encostados à membrana basal dos capilares, formando a glia limitans perivascular. Têm muitos canais de água, a aquaporina 4 (AQP4);
  • pés piais, sob a membrana basal da pia-máter, formando a glia limitans superficial, que separa o tecido nervoso das meninges.
Neuromielite ótica Nas formas de neuromielite ótica associadas a AQP4-IgG, autoanticorpos dirigidos à aquaporina 4 dos pés astrocitários participam na lesão inflamatória, com desmielinização secundária, sobretudo dos nervos óticos e medula espinhal.

Funções dos astrócitos:

  1. Suporte físico (glia significa cola).
  2. Suporte metabólico: convertem glicose em lactato, que fornecem aos neurónios; armazenam glicogénio; segregam fatores de crescimento (neurotrofinas) que promovem o crescimento dos neurónios e a formação de sinapses.
  3. Limpeza sináptica: captam o excesso de neurotransmissores na fenda, sobretudo glutamato, e reciclam-no.
  4. Acoplamento neurovascular: a atividade neuronal e as necessidades metabólicas desencadeiam sinais que ajustam o calibre vascular e o fluxo local. Participam neurónios, astrócitos e células vasculares, incluindo endotélio, pericitos e músculo liso. Sinais iónicos e mediadores vasoativos têm origens celulares distintas; não se trata de uma única cadeia de captação de glutamato e libertação astrocitária. As alterações hemodinâmicas e de oxigenação relacionadas com a atividade sustentam o sinal BOLD da ressonância magnética funcional, que é uma medida indireta.
  5. Controlo da atividade neuronal: regulam a concentração de iões no espaço extracelular, sobretudo o K^{+} libertado pelos neurónios ativos. Ligam-se entre si por junções comunicantes, formando um sincício funcional onde se propagam ondas de Ca^{2+}.
  6. Gliose reativa e cicatriz: Após lesão, a gliose reativa pode incluir hipertrofia, maior expressão de GFAP, reorganização dos prolongamentos e, em certos contextos, proliferação. Em lesões extensas, os astrócitos contribuem para uma cicatriz glial, que limita a propagação da lesão e pode também dificultar a regeneração axonal.
  7. Barreira hematoencefálica: os pés astrocitários participam no desenvolvimento, manutenção e regulação das propriedades do endotélio; a vedação paracelular principal pertence às junções endoteliais.

5.3. Barreira hematoencefálica

A barreira hematoencefálica controla a passagem de substâncias do sangue para o tecido nervoso. O seu componente essencial é o endotélio dos capilares do sistema nervoso central, que difere do dos outros capilares:

  • junções de oclusão maiores e mais complexas, que fecham a via paracelular;
  • endotélio contínuo, sem fenestrações e com muito pouca pinocitose;
  • transportadores específicos para glicose, aminoácidos e outros nutrientes, e bombas de efluxo que expulsam substâncias estranhas.

O principal componente físico de restrição paracelular é o endotélio contínuo com junções de oclusão. A membrana basal, pericitos e pés astrocitários integram a unidade neurovascular e regulam a barreira; não equivalem a uma segunda vedação oclusiva entre pés. A passagem depende das propriedades da molécula, de transportadores e de sistemas de efluxo. Algumas moléculas pequenas lipossolúveis difundem-se, mas lipossolubilidade não garante livre entrada de qualquer substância. A barreira protege o microambiente neuronal e limita a entrada de muitos fármacos.

Lesão da barreira Traumatismos, isquemia, infeções ou stress oxidativo lesam a barreira hematoencefálica: o líquido e as proteínas do plasma passam para o tecido nervoso e provocam edema cerebral.

Astrócitos modificados:

  • Pituícitos: na neuro-hipófise, rodeiam os terminais axonais dos neurónios hipotalâmicos, interpondo-se entre eles e os capilares, e regulam a neurossecreção.

5.4. Oligodendrócitos e mielina

Os oligodendrócitos são as células que formam a mielina no sistema nervoso central. São mais pequenos do que os astrócitos, com núcleo denso e irregular, citoplasma escuro, Golgi e mitocôndrias abundantes e muitos microtúbulos. Têm poucos prolongamentos (oligo = poucos). Cada oligodendrócito forma segmentos de mielina em vários axónios vizinhos (até dezenas). Abundam na substância branca; na cinzenta ficam junto aos corpos neuronais (oligodendrócitos satélite).

A diferenciação oligodendroglial e a mielinização seguem cronologias regionais. A mielina começa a formar-se durante a vida fetal, intensifica-se após o nascimento e continua a maturar por muitos anos. Os precursores persistem no adulto, permitindo formação e remodelação da mielina, inclusive associadas à aprendizagem; não há uma ordem universal de formação de toda a glia nem um único término para todas as vias.

Mielinização. Um prolongamento do oligodendrócito enrola-se em espiral à volta de um segmento do axónio. À medida que dá voltas, o citoplasma é expulso e as faces internas e externas da membrana encostam-se. Ao microscópio eletrónico, a bainha mostra linhas densas principais (fusão das faces citoplasmáticas) alternando com linhas intermédias (faces extracelulares). A bainha de mielina tem cerca de 70 a 80 % de lípidos na massa seca (colesterol, galactocerebrósidos, fosfolípidos) e 20 a 30 % de proteínas específicas: MBP (proteína básica da mielina) e PLP (proteína proteolipídica) sobretudo associadas ao sistema nervoso central (a MBP também existe no SNP); P0 e PMP22 no periférico.

Esclerose múltipla A esclerose múltipla é uma doença inflamatória imunomediada do SNC, com desmielinização, lesão de oligodendrócitos e graus variáveis de dano axonal. As placas podem envolver substância branca e cinzenta; os sintomas dependem das regiões atingidas. Componentes mielínicos, incluindo MBP em estudos experimentais, são relevantes para investigar respostas imunitárias, mas a doença não se explica por um alvo antigénico único e universal.

Nós de Ranvier. A bainha de mielina é interrompida a intervalos regulares nos nós de Ranvier, onde a membrana do axónio fica exposta. Os segmentos mielinizados entre dois nós são os internós. Os canais de Na^{+} dependentes da voltagem concentram-se no nó; certos canais de K^{+} concentram-se na região justaparanodal, sob a mielina. O potencial de ação só é regenerado nos nós e salta de nó em nó: condução saltatória, muito mais rápida e económica. No sistema nervoso central, o nó é contactado por prolongamentos de astrócitos.

5.5. Micróglia

A micróglia é o conjunto dos macrófagos residentes do sistema nervoso central e o seu principal sistema de defesa.

  • Células pequenas, com núcleo alongado e escuro e muitos prolongamentos curtos e ramificados; lisossomas numerosos e lipofuscina.
  • Grande motilidade e capacidade mitótica.
  • Origem mesodérmica: derivam de precursores eritromieloides do saco vitelino que invadem o sistema nervoso durante o desenvolvimento.
  • Funções imunitárias: fagocitose de células mortas, detritos e agentes patogénicos; apresentação de antigénios; libertação de citocinas.
  • Funções fisiológicas: regulam a morte programada e a neurogénese e mantêm as sinapses, eliminando terminais e espinhas dendríticas em excesso (poda sináptica).

A micróglia em vigilância tem prolongamentos finos e ramificados, que monitorizam o microambiente. Estímulos de lesão ou padrões moleculares reconhecidos por PRR podem modificar os prolongamentos, mediadores e atividade fagocítica; em certas lesões intensas surge uma forma mais arredondada ou amiboide. Proliferação e mudança de forma não são consequências obrigatórias de toda a ativação. Os estados funcionais são diversos e dependentes do contexto. A divisão M1/M2 é um modelo experimental simplificado: LPS/interferão γ associam-se a tendências pró-inflamatórias e IL-4/IL-13 a tendências reguladoras/reparadoras, sem constituir dois fenótipos fixos e exaustivos da micróglia in vivo.

Micróglia nas doenças neurodegenerativas A β-amiloide na doença de Alzheimer, a α-sinucleína na doença de Parkinson e outros sinais de dano podem alterar a atividade microglial, incluindo mecanismos mediados por PRR. As respostas podem remover material patológico ou contribuir para inflamação persistente e lesão, conforme o contexto. O VIH também pode alterar a atividade destas células.

5.6. Glia radial

A glia radial constitui uma população de progenitores neurais no desenvolvimento. Os corpos celulares relacionam-se com a região ventricular e os prolongamentos atingem a superfície pial, orientando a migração neuronal. Também participa na produção de neurónios e de células gliais; parte diferencia-se em astrócitos. Persistem formas especializadas no adulto, como a glia de Bergmann do cerebelo e as células de Müller da retina.

5.7. Células ependimárias e plexos coroideus

As células ependimárias revestem os ventrículos cerebrais e o canal central da medula espinhal, numa camada simples de células cúbicas a cilíndricas de aspeto epitelial, com cílios e microvilosidades apicais. O epêndima ventricular típico não assenta numa lâmina basal contínua convencional; a base emite prolongamentos que contactam os astrócitos. Os cílios ajudam a circulação do líquido cefalorraquidiano. Entre elas há tanicitos, com um longo prolongamento basal que contacta vasos e astrócitos, com funções neuroendócrinas (sobretudo no III ventrículo).

Os plexos coroideus existem nos quatro ventrículos (dois laterais, III e IV) e produzem o líquido cefalorraquidiano (LCR). São pregas com um eixo de conjuntivo laxo muito vascularizado, revestido por epitélio coroideu, derivado do neuroepitélio e especializado em relação ao epêndima ventricular, sobre uma lâmina basal: células cúbicas com microvilosidades, muitas mitocôndrias (transporte ativo de iões) e junções de oclusão. A designação de células ependimárias modificadas não implica ausência de lâmina basal neste epitélio.

Os capilares dos plexos são largos e fenestrados, sem as junções da barreira hematoencefálica. Aqui a barreira é feita pelas células epiteliais do plexo, unidas por junções de oclusão: é a barreira hematoliquórica. A passagem é regulada sobretudo por vias transcelulares, com canais, transportadores e mecanismos celulares específicos; as junções restringem a via paracelular.

O LCR tem, no adulto, pH aproximado de 7,3, habitualmente poucas células (menos de 5 por µL) e concentrações de proteína e glicose inferiores às plasmáticas. O trajeto principal é: ventrículos laterais → forames interventriculares (Monro) → III ventrículo → aqueduto cerebral → IV ventrículo → abertura mediana e duas laterais → espaço subaracnoideu, em torno do encéfalo e medula. A drenagem inclui vilosidades/granulações aracnoideias para seios venosos e outras vias, incluindo vias linfáticas; não se limita a uma única saída.

Análise do LCR A punção lombar permite analisar contagem e tipos celulares, proteínas, glicose e outros parâmetros do LCR. Pleocitose e aumento de proteínas são inespecíficos, podendo ocorrer em infeção, inflamação e outras patologias. A glicose baixa, interpretada em relação à glicemia, pode apoiar hipóteses infeciosas, incluindo meningite bacteriana, mas não determina isoladamente uma etiologia; os restantes parâmetros e a microbiologia são essenciais.

6. Meninges

6.1. As três meninges

As meninges são três camadas de conjuntivo que envolvem e protegem o sistema nervoso central:

  • Dura-máter: a mais externa e mais espessa, de conjuntivo denso. No crânio tem duas lamelas: a lamela externa (periosteal), rica em colagénio e algumas fibras elásticas, que funciona como periósteo e contém vasos; e a lamela interna (dura meningeal), com menos colagénio e fibroblastos mais pequenos. Entre as duas lamelas ficam os seios venosos. A face interna é revestida por fibroblastos pavimentosos sem junções de oclusão. Na medula espinhal, a dura-máter não adere ao osso e fica separada dele pelo espaço epidural, com gordura e veias.
  • Aracnoide: a camada externa adere à dura-máter e é formada por fibroblastos cúbicos unidos por junções de oclusão, a barreira aracnoideia, impermeável e avascular. A camada interna é formada por fibroblastos finos e ramificados, as trabéculas aracnoideias, que atravessam o espaço subaracnoideu. Este espaço contém LCR e os vasos maiores.
  • Pia-máter: fina camada leptomeníngea de células achatadas e conjuntivo delicado, intimamente associada à superfície do SNC. Uma lâmina basal separa os elementos piais dos pés astrocitários da glia limitans superficial. Acompanha os vasos maiores que penetram no tecido nervoso; o componente pial não envolve os capilares como uma bainha conjuntiva contínua.

A aracnoide e a pia-máter, ligadas pelas trabéculas, formam em conjunto a leptomeninge.

6.2. Circulação e absorção do LCR

Uma via clássica de absorção do LCR são as vilosidades e granulações aracnoideias, projeções em direção aos seios venosos que permitem a passagem para o sangue. Coexistem outras vias de drenagem, incluindo relações com vasos linfáticos meníngeos e vias perineurais. Esta descrição complementa o trajeto ventricular referido acima.

Meninges e LCR - Hemorragias intracranianas: epidural, entre crânio e dura, frequentemente arterial; subdural, por separação patológica de tecidos na interface dura-aracnoideia, muitas vezes por rutura de veias de ponte (não uma cavidade fisiológica ampla); subaracnoideia, para o espaço com LCR, por trauma ou rutura vascular, incluindo aneurismas. - Hidrocefalia: alteração da dinâmica do LCR com dilatação ventricular, por obstrução da circulação, compromisso da absorção ou outras causas. Pode relacionar-se com malformações, hemorragias ou tumores; a falha de absorção não deve ser excluída como mecanismo importante. - O espaço epidural raquidiano é o local de administração dos anestésicos na anestesia epidural.
- Corpos de Nissl (RER) no corpo e nas dendrites, ausentes no cone axonal e no axónio. - Axónio: tau, microtúbulos de orientação uniforme; dendrites: MAP2. Anterógrado = cinesina; retrógrado = dineína. - Astrócito: GFAP, pés vasculares, barreira hematoencefálica, K^{+} e glutamato. Oligodendrócito: mielina do SNC em vários axónios. Micróglia: macrófago, origem mesodérmica. Epêndima: reveste ventrículos. - Barreira hematoencefálica: junções de oclusão do endotélio. Barreira hematoliquórica: junções de oclusão do epitélio coroideu.

7.1. Encéfalo de rato, violeta de cresilo: citoarquitetura

O objetivo é delimitar regiões pela densidade de neurónios, comparando com um atlas citoarquitetónico. Distinguir o córtex, a formação hipocampal (corno de Ámon e giro dentado), o tálamo, o hipotálamo, a amígdala e o corpo caloso (substância branca, predominantemente axonal e com poucos corpos neuronais).

O isocórtex tem um plano de seis camadas, da pia à substância branca; a espessura, densidade celular e diferenciação de cada camada variam entre regiões, com limites por vezes graduais. Na preparação, a citoarquitetura permite reconhecer este padrão e diferenças regionais:

CamadaCaracterísticas
I, molecularA mais superficial; poucos corpos celulares; axónios tangenciais e plexos dendríticos
II, granulosa externaEscura; muitas células pequenas
III, piramidal externaCélulas piramidais pequenas e médias
IV, granulosa internaCélulas pequenas, densas; recebe as aferências talâmicas
V, piramidal internaCélulas piramidais grandes; projeções eferentes
VI, multiformeCélulas de formas variadas, junto à substância branca

7.2. Córtex cerebral de gato, Golgi rápido

Na preparação, a impregnação evidencia pericários, árvores dendríticas e porções variáveis de axónios. O segmento inicial e axónios amielínicos podem ser acompanhados, mas a extensão visível depende da técnica, mielinização e plano de corte. Reconhecem-se:

  • células piramidais: pericário triangular, uma dendrite apical longa e grossa que sobe até à camada molecular e aí se ramifica em leque, e dendrites basais; árvore dendrítica coberta de espinhas; o axónio sai da base, com silhueta cónica e afilada, e pode ser seguido em extensão variável; nesta preparação destaca-se sobretudo a região proximal;
  • interneurónios: dendrites sem orientação preferencial e axónio curto, muito ramificado junto ao corpo.

7.3. Cerebelo, tionina

A substância branca cora de rosa claro. A substância cinzenta que a reveste tem, da periferia para o interior:

  • camada molecular: clara, com células pequenas;
  • camada das células de Purkinje: uma fiada única de corpos celulares grandes e pouco corados;
  • camada granulosa: muitas células pequenas, regulares e intensamente coradas.

7.4. Cerebelo de gato, Golgi rápido

O método de Golgi mostra a variedade das células:

  • camada molecular: prolongamentos radiais das células de Bergmann, cujos corpos celulares se situam junto da camada de Purkinje; os prolongamentos atravessam a camada molecular até à superfície; neurónios estrelados (mais superficiais) e células em cesto, cujo axónio corre na base da camada e dá colaterais curtos que envolvem os corpos das células de Purkinje;
  • camada das células de Purkinje: uma fiada de células de Purkinje, com uma árvore dendrítica apical frondosa e muito espinhosa, que se espalha num plano perpendicular ao eixo da folha cerebelosa;
  • camada granulosa: células granulares, pequenas, com poucas dendrites curtas e um axónio que sobe à camada molecular e se divide em T (fibras paralelas); células de Golgi, maiores.

7.5. Neurópilo da medula espinhal de rato, microscopia eletrónica

Na micrografia distinguem-se parte do corpo neuronal, com núcleo (N) claro e citoplasma rico em ribossomas, e perfis do neurópilo. Terminações axonais contêm vesículas e mitocôndrias; densidades assimétricas com vesículas arredondadas favorecem uma interpretação excitatória e densidades mais simétricas com vesículas pleomórficas são frequentemente inibitórias, mas a função não se demonstra apenas pela forma. Axónios amielínicos têm microtúbulos; dendrites são em geral mais largas e de organização microtubular distinta. Prolongamentos gliais preenchem os espaços; os astrocitários podem ser reconhecidos por citoplasma claro e filamentos, quando resolvidos.

7.6. Medula espinhal de rato, formol-tionina

A mielina cora de rosa ou lilás e os neurónios de azul, o que distingue bem a substância branca da cinzenta. No corno dorsal (posterior) há muitos neurónios pequenos, sobretudo na parte superficial. No corno ventral (anterior) destacam-se neurónios grandes, com substância de Nissl muito abundante: os motoneurónios. Junto deles veem-se mais facilmente as células gliais, muito mais pequenas (a confirmação exige marcações específicas). À volta do canal central fica o revestimento de células ependimárias.

7.7. Córtex e hipocampo de rato, imunomarcação da GFAP: astrócitos

A GFAP evidencia muitos astrócitos e, sobretudo, os seus prolongamentos filamentosos e ramificados. O soma pode parecer arredondado, mas o perfil celular marcado é ramificado. Existem prolongamentos associados aos vasos, compatíveis com a relação perivascular; a imunomarcação ótica não resolve individualmente todos os componentes ultraestruturais dos pés vasculares.

7.8. Medula espinhal de rato, imunomarcação para OX-42: micróglia

A OX-42 reconhece CD11b, componente do recetor do complemento CR3, e evidencia a micróglia na preparação. Não é exclusiva desta população: pode marcar outros fagócitos mieloides, pelo que a leitura considera localização e morfologia. Os perfis positivos desta preparação são frequentemente ramificados.

7.9. Oligodendrócito e astrócito, microscopia eletrónica

O oligodendrócito (O) apresenta citoplasma relativamente eletrondenso e organelos de síntese. O astrócito (As) tem citoplasma relativamente claro e prolongamentos com feixes de filamentos intermédios, assinalados na micrografia; estes ajudam ao reconhecimento ultraestrutural.

Resumo escrito por estudantes para apoio ao estudo. Não substitui a bibliografia nem as indicações dos docentes da unidade curricular.