Epitélios glandulares
1. Glândulas exócrinas e endócrinas
1.1. Origem e definição
Os epitélios glandulares são especializados na síntese e libertação de produtos de secreção, como proteínas, glicoproteínas, lípidos e hormonas. Em muitas células há armazenamento temporário em grânulos ou vesículas; as produtoras de hormonas esteroides, por exemplo, armazenam precursores lipídicos e sintetizam predominantemente o produto final em resposta a estímulos. Muitas glândulas desenvolvem-se por proliferação de um epitélio de revestimento para o conjuntivo subjacente. O destino dessa invaginação ilustra os dois grandes tipos:
- Glândulas exócrinas: libertam os produtos numa superfície epitelial, diretamente ou através de ductos excretores. As glândulas unicelulares, como as células caliciformes, não possuem ducto próprio.
- Glândulas endócrinas: não possuem ductos excretores. Nas que se formam por invaginação, a ligação à superfície geralmente desaparece; existem também células endócrinas isoladas em epitélios. As hormonas são libertadas para o interstício e alcançam os capilares próximos, frequentemente fenestrados. Estes vasos pertencem ao estroma conjuntivo.
Nas glândulas exócrinas com ductos distinguem-se uma porção secretora, que produz a secreção, e uma porção excretora, que a conduz à superfície. O pâncreas possui uma componente exócrina, com ácinos e ductos, e uma endócrina, com ilhéus de Langerhans. Esta dupla função é diferente da designação mista seromucosa, usada para glândulas exócrinas com células serosas e mucosas.
1.2. Glândulas unicelulares
A glândula mais simples é uma única célula secretora intercalada num epitélio de revestimento.
Células caliciformes. Existem no epitélio dos aparelhos digestivo, respiratório e genital. Têm forma de cálice: a base é estreita e contém o núcleo, achatado e basal, rodeado de RER; o ápice é dilatado por uma ampola de grânulos de mucinogénio (sobretudo mucinas, glicoproteínas intensamente glicosiladas), com um Golgi muito desenvolvido acima do núcleo, responsável pelo processamento e por grande parte da glicosilação das mucinas. Em H&E a ampola é clara, porque o muco se cora mal; com PAS fica magenta intensa. Libertado, o mucinogénio hidrata-se e forma o muco, que lubrifica e protege a superfície.
Células neuroendócrinas. Integram o sistema neuroendócrino difuso (DNES), com populações dispersas em epitélios digestivos, respiratórios, urinários e genitais e células de características neuroendócrinas em algumas glândulas, como as células C da tiroide. APUD é uma designação histórica baseada em características metabólicas; argentafim e argirófilo referem propriedades histoquímicas de determinadas populações, não sinónimos de todas as células neuroendócrinas. As células enteroendócrinas libertam os produtos principalmente pela base, para o interstício, exercendo efeitos endócrinos ou parácrinos; os grânulos concentram-se no citoplasma basal. Quanto à relação com o lúmen, distinguem-se:
- tipo aberto: a célula chega ao lúmen e tem microvilosidades apicais que detetam o conteúdo luminal;
- tipo fechado: a célula não chega ao lúmen e responde a estímulos vindos do meio interno.
2. Classificação das glândulas exócrinas
2.1. Critérios
| Critério | Classes |
|---|---|
| Número de células | Unicelular; pluricelular |
| Forma da porção secretora | Tubulosa (pode ser enovelada); acinosa (alveolar, em forma de saco); túbulo-acinosa (mista) |
| Ramificação dos ductos excretores | Simples: sistema ductal não ramificado; composta: sistema ductal ramificado |
| Ramificação da porção secretora | Não ramificada: unidade sem divisão em ramos; ramificada: várias unidades ou segmentos secretores convergem para uma porção ductal comum |
| Tipo de secreção | Serosa; mucosa; mista (seromucosa) |
| Modo de secreção | Merócrina; apócrina; holócrina |
O nome completo de uma glândula combina os critérios morfológicos: primeiro a forma da porção secretora, depois a ramificação dos ductos (simples ou composta), depois a ramificação da porção secretora.
2.2. Glândulas simples
| Glândula | Exemplo |
|---|---|
| Tubulosa simples | Glândulas (criptas) do cólon e do intestino delgado |
| Tubulosa simples enovelada | Glândulas sudoríparas |
| Tubulosa simples ramificada | Glândulas gástricas pilóricas, no exemplo ilustrado |
| Acinosa simples | Glândulas da uretra (glândulas de Littré) |
| Acinosa simples ramificada | Glândulas sebáceas |
Na tubulosa simples do cólon, o epitélio invagina-se em tubos retos, compridos, que abrem um a um no lúmen. Na sudorípara, o tubo enrola-se num novelo na derme profunda; num corte, o novelo aparece como muitos perfis tubulares agrupados. Nas glândulas gástricas pilóricas ilustradas, várias porções tubulares secretoras convergem para uma mesma fosseta; a arquitetura varia entre regiões gástricas. Nas sebáceas, vários ácinos cheios de células claras desaguam num ducto curto que abre no folículo piloso.
2.3. Glândulas compostas
As glândulas compostas distinguem-se pelo sistema de ductos ramificados. Nas grandes glândulas organizadas em órgãos, como as salivares major e o pâncreas, uma cápsula conjuntiva envia septos que delimitam lobos e lóbulos e transportam vasos, nervos e ductos maiores. Outras glândulas compostas, como as de Brunner, formam conjuntos na parede de outro órgão, sem necessariamente apresentar esta organização macroscópica completa.
| Glândula | Exemplo |
|---|---|
| Tubulosa composta ramificada | Glândulas de Brunner (duodeno) |
| Acinosa composta ramificada | Pâncreas exócrino, parótida |
| Túbulo-acinosa composta | Glândula submandibular, sublingual, glândula mamária |
2.4. Árvore excretora de uma glândula salivar
Num lóbulo de glândula salivar, a secreção segue um percurso fixo, e cada segmento tem um epitélio próprio:
- Ácino (porção secretora), de células serosas ou mucosas, rodeado por células mioepiteliais.
- Peça intercalar (ducto intercalar): curta, de epitélio cúbico simples baixo, com lúmen pequeno.
- Canal estriado: epitélio cilíndrico simples, geralmente acidófilo, com estriações basais resultantes de pregas e interdigitações da membrana plasmática basal/basolateral e mitocôndrias associadas. Modifica a saliva primária por reabsorção sobretudo de sódio e cloreto e secreção de potássio e bicarbonato; sem passagem proporcional de água, a saliva final torna-se hipotónica. A composição varia com o débito salivar.
- Ducto principal, que abre na cavidade oral.
2.5. Células mioepiteliais
As células mioepiteliais são células epiteliais contrácteis, com filamentos de actina e miosina, situadas entre as células secretoras (ou dos ductos intercalares) e a lâmina basal. Têm prolongamentos ramificados que abraçam o ácino como um cesto (células em cesto). Unem-se às células secretoras por desmossomas e à lâmina basal por hemidesmossomas.
Ao contraírem, comprimem o ácino e expulsam a secreção para os ductos. Existem nas glândulas salivares, sudoríparas, lacrimais e mamárias. Em H&E veem-se pouco (núcleos achatados junto à base); a imunocoloração para actina evidencia-as.
2.6. Modo de secreção
Classifica a forma como o produto sai da célula:
- Merócrina (écrina): os grânulos de secreção são libertados por exocitose, sem perda de citoplasma. É o modo mais frequente: glândulas salivares, pâncreas, sudoríparas écrinas.
- Apócrina: o produto é libertado com uma pequena porção do citoplasma apical, envolvida por membrana. Exemplo: secreção dos lípidos do leite na glândula mamária (as proteínas do leite saem por exocitose merócrina).
- Holócrina: a célula inteira acumula o produto, morre e desintegra-se, e passa a ser a própria secreção. As células perdidas são repostas por células basais. Exemplo: glândula sebácea.
2.7. Tipo de secreção: serosa, mucosa e mista
As glândulas merócrinas classificam-se pelo produto. As diferenças refletem-se diretamente no aspeto em H&E:
| Células serosas | Células mucosas | |
|---|---|---|
| Produto | Secreção fluida, rica em proteínas (enzimas) | Muco viscoso (mucinas glicosiladas) |
| Forma da unidade | Ácino arredondado, lúmen pequeno | Túbulo, lúmen amplo |
| Forma da célula | Piramidal | Prismática ou piramidal; aspeto dependente do corte |
| Núcleo | Redondo, no terço basal | Achatado, encostado à base |
| Citoplasma | Basófilo na base (RER abundante); grânulos de zimogénio acidófilos no ápice | Claro, pálido, de aspeto espumoso (fraca coloração dos grânulos de mucinogénio por H&E e possível extração parcial no processamento); mucinas evidenciadas por PAS |
| Exemplos | Parótida, pâncreas exócrino | Glândulas de Brunner, glândulas esofágicas mucosas; sublingual (mista, predominantemente mucosa) |
Nas unidades seromucosas, as células serosas e mucosas participam na mesma unidade. Em preparações convencionais, células serosas podem formar agrupamentos periféricos em meia-lua, os crescentes serosos ou de Gianuzzi. O aspeto pode ser acentuado por artefactos de fixação; não implica uma organização linear universal em vida. A secreção serosa alcança o lúmen através de pequenos canalículos entre as células mucosas.
3. Glândulas endócrinas
3.1. Classificação morfológica
As glândulas endócrinas não têm ductos e classificam-se pela forma como as células secretoras se organizam em torno dos capilares:
- Trabeculares (cordonais): células em cordões, agrupamentos ou trabéculas associados a capilares, frequentemente sinusoides. As hormonas passam para o interstício antes de alcançarem o sangue. A arquitetura não determina o armazenamento: hormonas peptídicas podem ser armazenadas em grânulos e libertadas após estímulo; esteroides são predominantemente sintetizados em resposta a estímulos. Exemplos: córtex suprarrenal, ilhéus de Langerhans, adeno-hipófise e paratiroides.
- Foliculares (vesiculares): folículos de epitélio simples em torno de um lúmen com coloide, constituído sobretudo por tiroglobulina iodada, forma de armazenamento extracelular com precursores e hormonas tiroideias ligados à proteína. Após estímulo, as células reabsorvem coloide e processam tiroglobulina, libertando T3 e T4 pela região basal para o interstício e capilares. Exemplo característico: tiroide.
3.2. Tipos de secreção segundo o alvo
| Tipo | Via | Alvo |
|---|---|---|
| Endócrina clássica | Corrente sanguínea | Células distantes |
| Parácrina | Difusão local ou microcirculação | Células vizinhas |
| Autócrina | Ação na própria célula | A célula que segrega |
A mesma molécula pode atuar de várias formas. Nos ilhéus de Langerhans, por exemplo, a somatostatina das células δ inibe por via parácrina a secreção das células vizinhas.
- Exócrina = para uma superfície, diretamente ou por ductos; endócrina = sem ducto, para o interstício e sangue. - Seroso: ácino, núcleo redondo, citoplasma basal basófilo. Mucoso: túbulo, núcleo achatado, citoplasma claro. - Merócrina = exocitose; apócrina = perde citoplasma apical (lípidos do leite); holócrina = a célula inteira (sebácea). - A tiroide tem organização endócrina folicular e armazenamento extracelular de tiroglobulina iodada no coloide.
4.1. Cólon humano, H&E
Glândulas unicelulares e glândulas tubulosas simples. No epitélio, as células caliciformes têm uma ampola oval no ápice, onde acumulam mucinas, glicoproteínas intensamente glicosiladas. O epitélio invagina-se em tubos compridos, que abrem um a um no lúmen do cólon: glândulas tubulosas simples.
4.2. Pele de rã, H&E
Na pele de rã observam-se unidades glandulares arredondadas na derme sob o epitélio pavimentoso estratificado, apresentadas nesta preparação como acinosas simples, com ductos que abrem à superfície. Um corte isolado pode não mostrar a continuidade completa de cada ducto. Observam-se também células castanhas com melanina e vasos dilatados com sangue.
4.3. Submandibular humana, H&E
Glândula mista predominantemente serosa. Em pequena ampliação é escura, com pequenas manchas claras dispersas. Em maior ampliação, as zonas escuras são ácinos serosos e as claras são túbulos mucosos: lúmen amplo, células altas, de aspeto prismático ou piramidal de citoplasma pouco corado e núcleo achatado na base. Algumas unidades mucosas têm crescentes de Gianuzzi. Veem-se canais interlobulares nos septos, com revestimento variável e exemplos estratificados de maior calibre e canais intralobulares (canais estriados e peças intercalares).
4.4. Parótida de cão, H&E
Glândula serosa pura. As unidades secretoras são ácinos de células com citoplasma basófilo, por terem RER abundante, e núcleos redondos. A porção excretora tem canais intralobulares (peças intercalares e canais estriados) e interlobulares.
4.5. Sublingual humana, H&E
Glândula mista predominantemente mucosa. O aspeto geral é claro devido ao predomínio de unidades mucosas. A componente serosa é menos abundante; podem observar-se unidades mistas com crescentes de Gianuzzi, cuja frequência e visibilidade variam com a preparação e o plano de corte. Os canais estriados são geralmente menos desenvolvidos do que nas glândulas predominantemente serosas.
4.6. Ultraestrutura das glândulas salivares
- Célula mucosa: numerosos grânulos de mucinogénio, relativamente eletrón-lucentes, e núcleo basal comprimido; RER abundante para a componente proteica das mucinas e Golgi desenvolvido. Por fora podem observar-se prolongamentos mioepiteliais e a lâmina basal. A abundância de grânulos claros é um critério de reconhecimento importante.
- Célula serosa: grânulos secretores apicais junto ao lúmen, RER muito desenvolvido em lamelas paralelas e Golgi supranuclear. Algumas cisternas podem estar dilatadas na imagem, mas essa dilatação não é um requisito universal nem demonstra, por si, acumulação patológica de proteínas.
- Canal estriado: microvilosidades curtas e vesículas no ápice; na base, pregas da membrana plasmática basal/basolateral com mitocôndrias alojadas entre elas; espaços peritubulares com conjuntivo e capilares.
4.7. Córtex suprarrenal de cão, H&E
Epitélio glandular endócrino trabecular, na zona fasciculada. As células dispõem-se em cordões aproximadamente paralelos, sobretudo perpendiculares à cápsula, separados por capilares sinusoides de lúmen variável e endotélio de núcleos achatados. O citoplasma claro relaciona-se com gotículas lipídicas, em grande parte extraídas no processamento, nas células produtoras de esteroides. Alguns perfis vasculares podem parecer colapsados por efeito da preparação; não é uma condição obrigatória.
4.8. Tiroide, H&E
Epitélio endócrino folicular (vesicular). As células foliculares, habitualmente cúbicas e de altura variável com a atividade, delimitam folículos com coloide rico em tiroglobulina. Entre eles há escasso conjuntivo muito vascularizado. Existem ainda células parafoliculares ou C, produtoras de calcitonina, no epitélio ou em grupos interfoliculares, sem contacto com o lúmen. A sua identificação individual em H&E humano corrente é geralmente pouco segura.
4.9. Pâncreas de coelho, H&E
Glândula exócrina e endócrina. O componente exócrino tem ácinos serosos, com células centroacinosas que representam o início intra-acinoso das peças intercalares. Estas continuam pelos ductos intralobulares e interlobulares, nos septos conjuntivos; a altura e a organização do epitélio ductal variam com o calibre, podendo haver estratificação nos maiores. Ao contrário das glândulas salivares, o pâncreas não tem canais estriados. As células centroacinosas e intercalares participam na secreção de água e bicarbonato. O componente endócrino é trabecular e forma os ilhéus de Langerhans, agrupamentos arredondados mais claros entre os ácinos.
Resumo escrito por estudantes para apoio ao estudo. Não substitui a bibliografia nem as indicações dos docentes da unidade curricular.