Gestor UniversitárioComissão de Curso · FMUP 2025–2031Entrar
ResumosDinâmica Molecular da Célula · T14

Fluxo metabólico na mitocôndria

4 min de leitura

1. A mitocôndria para além do ATP

A mitocôndria recebe carbono de glícidos, lípidos e aminoácidos e redistribui-o entre produção de energia e biossíntese. Produz ATP, mas também acetil-CoA, citrato, oxaloacetato, aspartato, α-cetoglutarato, succinil-CoA, NADPH, grupos de um carbono e intermediários do heme. Armazena e utiliza cofatores e comunica metabolicamente com RE, peroxissoma, lisossoma e citosol.

Lípidos mitocondriais também são cooperativos: fosfatidilserina do RE é convertida em fosfatidiletanolamina na mitocôndria; fosfatidato transferido para a membrana interna contribui para cardiolipina. A composição lipídica sustenta cristas, cadeia respiratória, fusão e apoptose.

2. Entrada de carbono e transporte

A membrana interna exige transportadores específicos. O piruvato entra pelo MPC; ADP/ATP trocam-se por ANT; fosfato entra pelo transportador de fosfato; dicarboxilatos, tricarboxilatos, glutamato, aspartato e nucleótidos têm carreadores próprios.

No citosol, glicólise converte glicose em piruvato e NADH. Em aerobiose, piruvato entra na matriz e o complexo piruvato-desidrogenase (PDH) forma acetil-CoA, CO₂ e NADH. A PDH é inibida por fosforilação via PDK, estimulada por ATP, NADH e acetil-CoA; PDP desfosforila-a, favorecida por Ca²⁺ em músculo. A redução de piruvato a lactato regenera NAD⁺ quando a oxidação mitocondrial é insuficiente ou a glicólise é muito rápida.

3. Ciclo do ácido cítrico: anfibólico e regulado

Acetil-CoA condensa com oxaloacetato para formar citrato. Isomerização e duas descarboxilações oxidativas produzem α-cetoglutarato e depois succinil-CoA; a conversão em succinato gera GTP/ATP; succinato-desidrogenase forma FADH₂ e fumarato; fumarase e malato-desidrogenase regeneram oxaloacetato. Por acetil-CoA, formam-se três NADH, um FADH₂, um GTP e dois CO₂.

O ciclo é anfibólico: oxida carbono e fornece precursores. Citrato alimenta lipogénese; α-cetoglutarato e oxaloacetato originam aminoácidos; succinil-CoA participa no heme; malato e oxaloacetato contribuem para gluconeogénese. A retirada de intermediários, cataplerose, tem de ser compensada por anaplerose.

A principal reação anaplerótica em mamíferos é a piruvato-carboxilase, que usa ATP, biotina e acetil-CoA como ativador para formar oxaloacetato. Glutamina entra como glutamato/α-cetoglutarato; propionil-CoA origina succinil-CoA. O ciclo não consegue oxidar acetil-CoA sustentadamente se o oxaloacetato for esgotado.

4. Integração com β-oxidação e cadeia respiratória

Ácidos gordos longos são ativados no citosol/face externa e entram pela lançadeira da carnitina: CPT1 forma acilcarnitina, CACT transporta-a e CPT2 regenera acil-CoA. Malonil-CoA inibe CPT1, evitando oxidação simultânea à síntese de ácidos gordos. Na matriz, cada ciclo de β-oxidação gera acetil-CoA, NADH e FADH₂.

Em défice de CPT1/CACT/CPT2 ou de enzimas de β-oxidação, surgem hipoglicemia hipocetótica, fraqueza, cardiomiopatia ou rabdomiólise, dependendo do defeito. Jejum prolongado é perigoso porque o fígado não obtém ATP e acetil-CoA suficientes para gluconeogénese e cetogénese.

5. Ureagénese e gluconeogénese

O catabolismo de aminoácidos produz amónio. Na matriz hepática, CPS1 combina NH₄⁺ e bicarbonato usando ATP, ativada por N-acetilglutamato; OTC converte carbamoil-fosfato e ornitina em citrulina. A citrulina sai para o citosol, onde se forma argininosuccinato, arginina e ureia; a ornitina regressa à matriz. O fumarato liga o ciclo da ureia ao ciclo do citrato.

O carbono de alanina chega como piruvato e o azoto como glutamato/aspartato. Piruvato-carboxilase forma oxaloacetato; PEPCK mitocondrial ou citosólica converte-o em fosfoenolpiruvato. Como oxaloacetato não atravessa diretamente a membrana interna, pode sair como malato ou aspartato, transferindo também equivalentes redutores.

6. Corpos cetónicos

Em jejum, β-oxidação produz acetil-CoA hepático em excesso, enquanto oxaloacetato é usado na gluconeogénese. Duas moléculas de acetil-CoA formam acetoacetil-CoA; HMGCS2 gera HMG-CoA e HMGCL forma acetoacetato. Este é reduzido a β-hidroxibutirato conforme a razão NADH/NAD⁺, ou descarboxila espontaneamente a acetona.

O fígado exporta acetoacetato e β-hidroxibutirato, mas não os utiliza porque não expressa SCOT/OXCT1. Tecidos extra-hepáticos reconvertem-nos em acetil-CoA. O cérebro adapta-se durante jejum prolongado; eritrócitos não os usam por não terem mitocôndrias.

Cetose fisiológica de jejum distingue-se de cetoacidose diabética: nesta, falta de insulina e excesso de contrarreguladores causam lipólise e cetogénese descontroladas, hiperglicemia, desidratação e acidose.

7. Biossíntese mitocondrial

7.1 Heme

A primeira reação, por ALA-sintase, condensa glicina e succinil-CoA na matriz. Etapas intermédias decorrem no citosol; coproporfirinogénio regressa ao organelo e ferroquelatase insere Fe²⁺ na protoporfirina IX. ALA-sintase 1 hepática é reprimida pelo heme; ALAS2 eritroide é regulada pelo ferro.

7.2 Citrato, aminoácidos e um carbono

Citrato exportado é clivado por ATP-citrato-liase, fornecendo acetil-CoA para ácidos gordos e colesterol. Glutamina repõe α-cetoglutarato; em hipoxia ou defeitos respiratórios, a carboxilação redutiva de α-cetoglutarato pode contribuir para citrato. Serina entra no metabolismo de um carbono mitocondrial, formando glicina, unidades formilo e NADPH; estas sustentam purinas, timidilato e equilíbrio redox.

8. Equivalentes redutores e lançadeiras

NADH citosólico não atravessa a membrana interna. A lançadeira malato–aspartato transfere eletrões para NADH matricial, com rendimento energético elevado; a lançadeira glicerol-3-fosfato transfere-os para FAD/ubiquinona, com menor rendimento. Transportadores e gradientes tornam estas redes dependentes do estado celular.

NADPH mitocondrial mantém glutationa e tioredoxina reduzidas. Pode ser produzido por IDH2, enzima málica e NNT. O metabolismo serina–um carbono também contribui.

NNT usa a força protomotriz para transferir hidreto de NADH para NADP⁺. Em certas condições de gradiente baixo ou procura extrema, a reação pode inverter-se, consumindo NADPH; por isso, o seu efeito redox depende do contexto.

9. Resumo de alto rendimento

  • O ciclo do citrato é anfibólico: oxida acetil-CoA e fornece precursores.
  • Cataplerose exige anaplerose; piruvato-carboxilase é uma reação central.
  • A lançadeira da carnitina controla entrada de ácidos gordos longos e é inibida por malonil-CoA.
  • Ureagénese, gluconeogénese e ciclo do citrato comunicam por aspartato, fumarato, malato e oxaloacetato.
  • O fígado produz corpos cetónicos, mas não os utiliza por falta de SCOT.
  • Heme, lípidos, nucleótidos e aminoácidos dependem de metabolitos mitocondriais.
  • Lançadeiras transferem equivalentes redutores; NADH não atravessa diretamente a membrana interna.

Resumo escrito por estudantes para apoio ao estudo. Não substitui a bibliografia nem as indicações dos docentes da unidade curricular.