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ResumosDinâmica Molecular da Célula · T06

Superfície celular: especializações e complexos de união

16 min de leitura

1. A superfície celular é uma interface organizada

A membrana plasmática é o elemento comum à superfície de todas as células. Contudo, “superfície” não significa uma bicamada homogénea. A distribuição de lípidos, proteínas, glicanos e elementos do citoesqueleto cria domínios especializados que permitem absorção, secreção, movimento, adesão, comunicação e resistência mecânica.

Numa célula epitelial polarizada distinguem-se:

  • domínio apical: voltado para o lúmen ou exterior; pode conter microvilosidades, cílios e glicocálix;
  • domínio lateral: contacta células vizinhas; contém complexos de união e interdigitações;
  • domínio basal: contacta a lâmina basal; contém hemidesmossomas, adesões focais e transportadores especializados.

As junções apertadas limitam a difusão entre os domínios apical e basolateral. Esta polaridade permite, por exemplo, que um transportador importe um soluto no polo apical e outro o exporte no polo basal, produzindo transporte vetorial através do epitélio.


Parte I — Microvilosidades e glicocálix

2. Microvilosidades: ampliar sem aumentar o volume

As microvilosidades são projeções digitiformes da membrana sustentadas por feixes paralelos de actina. Aumentam muito a área superficial sem obrigar a aumentar proporcionalmente o volume celular. São particularmente abundantes em:

  • enterócitos do intestino delgado, onde formam o prato estriado;
  • túbulos proximais renais, onde formam uma bordadura em escova;
  • epitélio da vesícula biliar e outros epitélios de absorção.

Uma microvilosidade típica mede aproximadamente 1–2 µm de comprimento e cerca de 0,1 µm de diâmetro. Milhares de microvilosidades regularmente alinhadas produzem, em microscopia ótica, uma faixa apical contínua. Não deve ser confundida com cílios: a microvilosidade é mais curta, não possui axonema e o seu eixo é actina, não microtúbulos.

3. Glicocálix e reação PAS

O glicocálix é a camada rica em hidratos de carbono voltada para o exterior da membrana. Resulta de:

  • N- e O-glicanos de glicoproteínas;
  • glicolípidos;
  • proteoglicanos;
  • mucinas secretadas ou membranares.

A reação PAS (Periodic Acid–Schiff) oxida grupos vicinais dos açúcares e produz coloração magenta. Por isso, o prato estriado e o muco das células caliciformes são PAS-positivos.

No intestino, o glicocálix:

  • protege a membrana contra agressão mecânica e química;
  • sustenta enzimas de digestão terminal, como dissacaridases e peptidases;
  • organiza transportadores;
  • participa na interação com microbiota e agentes patogénicos;
  • cria uma barreira hidratada acima da membrana.

4. Arquitetura molecular da microvilosidade

Cada microvilosidade contém um feixe central de cerca de 20–30 filamentos de actina paralelos. A organização inclui:

  • fimbrina/plastina, vilina e espina: agrupam os filamentos;
  • miosina-1 e calmodulina: ligam lateralmente o feixe à membrana;
  • espectrina, miosina II e filamentos de actina: formam a teia terminal abaixo da superfície;
  • proteínas do complexo terminal: organizam crescimento e estabilidade na ponta.

O feixe prolonga-se para a teia terminal, que distribui força e mantém a regularidade do prato estriado. A membrana não é apenas “colocada” sobre o feixe: está mecanicamente ligada a ele.

5. Polaridade da actina

A actina G polimeriza em actina F polarizada. Nas microvilosidades:

  • as extremidades farpadas (+) orientam-se para a ponta;
  • as extremidades pontiagudas (−) orientam-se para a base/teia terminal.

Esta orientação favorece incorporação de actina na ponta. A estrutura adulta pode parecer estável, mas existe renovação regulada de subunidades e proteínas associadas. A polaridade também determina a direção de miosinas que transportam componentes ao longo do feixe.

6. Lesão e remodelação patológica

6.1 Atrofia microvilositária

A diminuição do número ou altura das microvilosidades reduz a área absortiva e a densidade de enzimas/transportadores. Pode causar diarreia e má absorção. Na doença de inclusão microvilositária congénita, variantes de MYO5B ou genes relacionados perturbam tráfego apical e formação do bordo em escova.

6.2 Escherichia coli enteropatogénica

EPEC forma lesões de “adesão e apagamento”:

  1. adere ao enterócito;
  2. um sistema de secreção tipo III injeta efetores;
  3. o recetor Tir é inserido na membrana do hospedeiro;
  4. a adesina bacteriana intimina liga Tir;
  5. vias celulares recrutam N-WASP/Arp2/3 e polimerizam actina;
  6. forma-se um pedestal de actina sob a bactéria;
  7. microvilosidades vizinhas são apagadas.

6.3 Shigella

Shigella induz pregas e pseudópodes ricos em actina para entrar na célula. Depois usa IcsA, N-WASP e Arp2/3 para formar caudas de actina e disseminar-se entre células. EPEC e Shigella exploram a mesma matéria-prima — actina — mas com arquiteturas e finalidades distintas.


Parte II — Cílios, flagelos e estereocílios

7. Distribuição e funções

Os cílios são projeções membranares com esqueleto de microtúbulos. Podem:

  • deslocar muco no epitélio respiratório;
  • contribuir para transporte no aparelho reprodutor feminino;
  • movimentar líquido cefalorraquidiano em epitélios especializados;
  • funcionar como antenas sensoriais e plataformas de sinalização.

O flagelo do espermatozoide é uma versão longa e altamente especializada de um cílio móvel. A diferença “cílio curto/flagelo longo” é morfológica; ambos partilham o axonema eucariótico.

8. Axonema e corpúsculo basal

8.1 Cílio móvel canónico

O axonema 9+2 possui:

  • nove dupletos periféricos de microtúbulos;
  • dois microtúbulos centrais;
  • braços de dineína externos e internos;
  • raios radiais;
  • ligações de nexina/complexo regulador entre dupletos;
  • membrana plasmática envolvente.

Cada dupleto contém um microtúbulo A completo e um B incompleto. A base do cílio é o corpúsculo basal, derivado de um centríolo, com nove tripletos e sem par central. Entre corpúsculo basal e axonema existe uma zona de transição que controla entrada de proteínas.

8.2 Cauda do espermatozoide

Além do axonema, contém fibras densas externas. Na peça intermédia, mitocôndrias envolvem o complexo; na peça principal existe bainha fibrosa. Estas estruturas adaptam rigidez, produção energética e forma de onda.

9. Dineína axonemal e curvatura

  1. A dineína está ancorada no microtúbulo A de um dupleto.
  2. O domínio motor liga o microtúbulo B do dupleto adjacente.
  3. Hidrólise de ATP gera deslocamento relativo.
  4. Se os dupletos estivessem livres, deslizariam.
  5. Nexina, raios radiais e ancoragem basal limitam deslizamento.
  6. A força converte-se em curvatura.
  7. Ativação espacial e temporal coordenada de diferentes dineínas produz a onda de batimento.

A dineína axonemal não é idêntica à dineína citoplasmática de transporte, embora pertençam à mesma família de motores dirigidos para a extremidade menos.

10. Cílio primário e transporte intraflagelar

A maioria das células possui um cílio primário, geralmente 9+0 e não móvel. Atua em vias como Hedgehog, PDGF e mecanossensação. A montagem exige transporte intraflagelar (IFT):

  • cinesina-2 transporta material para a ponta;
  • dineína-2 efetua transporte retrógrado;
  • a zona de transição funciona como barreira seletiva.

Há exceções ao esquema simples: cílios nodais embrionários podem ser 9+0 e móveis; cílios sensoriais podem possuir arquiteturas especializadas.

11. Discinesia ciliar primária

A discinesia ciliar primária (DCP) é geneticamente heterogénea. Variantes de DNAH5 e DNAI1, componentes dos braços externos de dineína, são causas clássicas. O batimento ausente ou descoordenado provoca:

  • infeções respiratórias recorrentes;
  • tosse húmida crónica e bronquiectasias;
  • rinossinusite e otite média;
  • infertilidade masculina por disfunção flagelar;
  • fertilidade feminina reduzida em alguns casos;
  • defeitos de lateralidade.

O fluxo nodal embrionário ajuda a quebrar simetria esquerda-direita. Se falhar, a lateralidade pode tornar-se aleatória; cerca de metade dos doentes com certas formas apresenta situs inversus. A tríade situs inversus, sinusite crónica e bronquiectasias é chamada síndrome de Kartagener, mas nem toda DCP é Kartagener.

12. Ciliopatias

“Ciliopatia” abrange doenças de cílios móveis e/ou primários. O fenótipo depende do módulo afetado:

  • cílios móveis: depuração mucociliar, fertilidade e lateralidade;
  • cílios primários: rim, retina, cérebro, esqueleto, metabolismo e desenvolvimento;
  • proteínas partilhadas: combinações multissistémicas.

Exemplos incluem doença renal poliquística, nefronoftise, síndrome de Bardet-Biedl, síndrome de Joubert e algumas distrofias retinianas. A pleiotropia resulta de reutilização da mesma organela em muitos tecidos.

13. Flagelo bacteriano: analogia, não identidade

O flagelo bacteriano não contém actina, tubulina nem dineína. É constituído por:

  • filamento de flagelina;
  • gancho flexível;
  • corpo basal com anéis e motor rotatório;
  • fluxo de H+ ou, nalgumas espécies, Na+ como fonte de energia.

O motor roda o filamento como uma hélice. O flagelo eucariótico curva-se por deslizamento de microtúbulos dependente de ATP. São soluções evolutivas e moleculares distintas para locomoção.

14. Estereocílios

Estereocílios são microvilosidades longas e imóveis, não cílios verdadeiros. Contêm feixes de actina e ocorrem:

  • nas células ciliadas do ouvido interno, onde a deflexão abre canais mecanossensíveis;
  • no epidídimo, onde aumentam absorção e secreção.
EstruturaCitoesqueletoMovimentoExemplo
Microvilosidadeactinageralmente nãointestino
Estereocílioactinadeflexão passivaouvido interno
Cílio móvelmicrotúbulos 9+2dineína + ATPvia respiratória
Cílio primáriomicrotúbulos, geralmente 9+0geralmente nãosensor celular
Flagelo espermáticoaxonema + acessóriosdineína + ATPespermatozoide
Flagelo bacterianoflagelina/motor basalrotação por gradiente iónicobactéria

Parte III — Complexos de união

15. Organização geral

Num epitélio, as junções tendem a ordenar-se do polo apical para a base:

  1. zonula occludens ou junção apertada;
  2. zonula adherens ou junção aderente;
  3. desmossomas pontuais ao longo da face lateral;
  4. junções de hiato em regiões de comunicação;
  5. hemidesmossomas no domínio basal.

“Zonula” significa uma cintura contínua; “macula” designa um ponto. As junções não são apenas cola: integram barreira, mecanotransdução, polaridade e sinalização.

16. Quadro comparativo

JunçãoLigaçãoProteínas transmembranaresCitoesqueletoFunção dominante
Apertadacélula-célulaclaudinas, ocludina, JAM, tricelulinaactina via ZObarreira e cerca
Aderentecélula-célulacaderinas clássicasactinatensão e morfogénese
Desmossomacélula-céluladesmogleína, desmocolinafilamentos intermédiosresistência mecânica
Hiatocélula-célulaconexinassem ancoragem estrutural principalcomunicação direta
Hemidesmossomacélula-matrizintegrina α6β4, colagénio XVIIfilamentos intermédiosancoragem à lâmina basal

Parte IV — Junções apertadas

17. Localização e ultraestrutura

Na barreira hematoencefálica, células endoteliais contínuas possuem junções apertadas especialmente restritivas, apoiadas por pericitos, membrana basal e pés de astrócitos. A baixa permeabilidade paracelular obriga muitos solutos a usar transportadores transcelulares.

Em corte transversal, as membranas parecem aproximar-se em pontos de “beijo”. Na criofratura, observam-se cordões ramificados que circundam a célula. O número e composição dos cordões influenciam resistência e seletividade, mas mais cordões não equivalem automaticamente a impermeabilidade absoluta.

18. Duas funções: gate e fence

18.1 Função de barreira (gate)

Regula passagem paracelular de água, iões e solutos. Não é uma parede invariavelmente hermética: diferentes claudinas criam barreiras ou poros seletivos por carga/tamanho. Intestino e túbulo renal necessitam permeabilidade regulada; bexiga e barreira hematoencefálica são mais restritivas.

18.2 Função de cerca (fence)

Limita difusão lateral de lípidos e proteínas entre membranas apical e basolateral, ajudando a conservar polaridade.

19. Componentes moleculares

Claudinas

As claudinas constituem uma família com cerca de 27 membros humanos e possuem quatro segmentos transmembranares. As ansas extracelulares interagem com claudinas da célula vizinha e determinam seletividade. Algumas são “selantes”; outras formam poros paracelulares seletivos.

Ocludina

Também possui quatro passagens. Modula estabilidade, sinalização e resposta a stress. Não é suficiente nem absolutamente necessária para formar todos os cordões, o que explica por que as claudinas são consideradas o núcleo estrutural.

JAM

As junctional adhesion molecules pertencem à superfamília das imunoglobulinas e participam na montagem, polaridade e tráfego de leucócitos.

Tricelulina e angulinas

Nos pontos onde três células se encontram existe uma via paracelular potencialmente maior. Angulinas marcam o vértice tricelular e recrutam tricelulina para selar o contacto.

Proteínas ZO

ZO-1, ZO-2 e ZO-3 são adaptadores com domínios PDZ que ligam proteínas transmembranares à actina e a complexos de sinalização. A junção é, assim, uma plataforma mecanossensível e dinâmica.

20. Doenças associadas a claudinas

  • Claudina-16: variantes em `CLDN16` causam hipomagnesemia familiar com hipercalciúria e nefrocalcinose. No ramo ascendente espesso, a via paracelular de Mg²⁺/Ca²⁺ fica comprometida.
  • Claudina-14: variantes bialélicas em `CLDN14` podem causar surdez neurossensorial autossómica recessiva por alteração da homeostase iónica no ouvido interno.

A diversidade de fenótipos mostra que as claudinas não são intercambiáveis.

21. Toxina colérica

21.1 Mecanismo passo a passo

  1. A toxina AB5 liga o gangliósido GM1 na face apical do enterócito.
  2. É endocitada e segue transporte retrógrado para Golgi e RE.
  3. A subunidade A1 usa a maquinaria de controlo de qualidade/retrotranslocação para alcançar o citosol.
  4. A1 ADP-ribosila a subunidade Gsα.
  5. Gsα fica persistentemente ativa e estimula adenilato ciclase.
  6. Aumenta AMPc e ativa PKA.
  7. PKA aumenta abertura de CFTR e secreção de Cl⁻/HCO3⁻.
  8. Diminui absorção de Na⁺, incluindo por regulação de NHE3.
  9. Água acompanha o gradiente osmótico para o lúmen.
  10. Surge diarreia aquosa volumosa, com risco de desidratação e choque.

A toxina não precisa de destruir fisicamente as junções apertadas para gerar o fluxo. Altera transporte transcelular, enquanto as vias paracelulares e a permeabilidade epitelial influenciam o movimento de água/eletrólitos.

21.2 Por que funciona a solução de reidratação oral?

O cotransportador apical SGLT1 continua capaz de absorver glucose e Na⁺. Uma solução com proporções adequadas de glucose e sais promove absorção de Na⁺ e água apesar do AMPc elevado. O tratamento fundamental é reidratação oral; casos graves requerem reposição intravenosa rápida e cuidados clínicos. Antibióticos e zinco pediátrico dependem da gravidade e de protocolos locais.

22. Exemplo epidemiológico: cólera em Moçambique

O conjunto de dados analisado regista, para Moçambique, 2267 casos entre 28 de janeiro e 25 de fevereiro de 2026. Este valor é uma fotografia temporal e não deve ser usado como contagem atual permanente. A prevenção depende de água segura, saneamento, higiene, vigilância, vacinação oral em contextos indicados e acesso rápido a reidratação.


Parte V — Junções aderentes e desmossomas

23. Zonula adherens

A junção aderente é um cinturão abaixo da junção apertada. A E-caderina:

  • é uma proteína transmembranar dependente de Ca²⁺;
  • estabelece ligações homofílicas com E-caderina da célula vizinha;
  • liga p120-catenina e β-catenina;
  • associa-se à α-catenina, vinculina e actina sob tensão;
  • transmite forças entre células.

O cinturão de actomiosina controla forma celular, invaginação, convergência e extensão de tecidos. Caderinas também influenciam sinalização; β-catenina pode participar na via Wnt, embora a sua fração juncional e sinalizadora sejam reguladas de forma distinta.

24. E-caderina e tumor gástrico difuso

A ausência ou redução de marcação membranar indica perda de expressão, localização ou função de E-caderina. Em carcinoma gástrico difuso, alterações de CDH1 podem reduzir coesão e favorecer células isoladas ou em anel de sinete que infiltram a parede. A imagem isolada não define o mecanismo — pode haver mutação, silenciamento epigenético, processamento ou internalização —, mas o fenótipo é compatível com perda de adesão.

25. Desmossoma

O desmossoma é uma adesão pontual resistente à tração:

  • desmogleínas e desmocolinas: caderinas desmossómicas transmembranares;
  • plakoglobina e plakofilinas: placa adaptadora;
  • desmoplaquina: liga a placa aos filamentos intermédios;
  • queratinas: distribuem força pelo epitélio.

É abundante em tecidos sujeitos a stress, como epiderme e miocárdio. Na camada espinhosa, retração artefatual entre queratinócitos preserva pontes desmossómicas e produz o aspeto “espinhoso”.

26. Pênfigo: perda de adesão desmossómica

No pênfigo, autoanticorpos contra desmogleínas comprometem adesão entre queratinócitos e causam acantólise:

  • pênfigo vulgar: frequentemente anti-desmogleína 3, com ou sem anti-Dsg1; clivagem suprabasal e envolvimento mucoso frequente;
  • pênfigo foliáceo: sobretudo anti-Dsg1; clivagem mais superficial.

Correção conceptual: o pênfigo provoca bolha intraepidérmica, não separação entre epiderme e derme. A separação subepidérmica é mais característica de penfigoide bolhoso ou defeitos da junção dermoepidérmica/hemidesmossoma.


Parte VI — Junções de hiato

27. Estrutura

Uma junção de hiato permite continuidade aquosa regulada entre citoplasmas:

  1. seis conexinas oligomerizam num conexão ou hemicanal;
  2. um conexão de cada célula alinha-se no espaço intercelular;
  3. os dois formam um canal completo;
  4. muitos canais agregam-se numa placa juncional.

Passam iões e pequenas moléculas, geralmente abaixo de cerca de 1–1,5 kDa, como:

  • Ca²⁺ e outros iões;
  • AMPc e IP3;
  • ATP e metabolitos pequenos;
  • açúcares e aminoácidos selecionados.

Não passam proteínas ou ácidos nucleicos inteiros. A seletividade depende da isoforma e combinação de conexinas. Alterações de voltagem, pH, Ca²⁺ citosólico e fosforilação regulam abertura; aumento intenso de Ca²⁺ ou acidificação pode fechar canais e isolar uma célula lesada.

28. Função fisiológica

As junções de hiato permitem:

  • sincronização elétrica de cardiomiócitos e músculo liso;
  • propagação de sinais metabólicos;
  • coordenação de epitélios;
  • partilha de metabolitos entre células de suporte e células germinativas.

Uma junção de hiato comunica; não foi concebida para suportar carga mecânica como desmossoma.

29. Complexo cúmulo-ovócito

O ovócito está separado das células do cúmulo pela zona pelúcida, mas prolongamentos transzonais contactam a sua membrana. Junções de hiato transferem metabolitos, nucleótidos e sinais que sustentam crescimento e controlo meiótico. De forma simplificada:

  • conexina 43 é importante na comunicação entre células da granulosa/cúmulo;
  • conexina 37 participa na interface ovócito-cúmulo em modelos mamíferos;
  • cGMP proveniente das células somáticas ajuda a manter o ovócito em paragem meiótica;
  • o pico de LH reduz essa comunicação/sinalização e permite retoma da meiose.

Defeitos de conexinas podem, portanto, afetar maturação ovocitária e fertilidade.


Parte VII — Hemidesmossomas, integrinas e interdigitações

30. Hemidesmossoma

O hemidesmossoma liga a célula à matriz, não a outra célula. Componentes principais:

  • integrina α6β4: recetor para laminina-332;
  • colagénio XVII/BP180: proteína transmembranar;
  • plectina e BP230: placa intracelular;
  • queratinas: filamentos intermédios;
  • laminina-332 e colagénio VII: ligação à lâmina basal e tecido conjuntivo.

Defeitos genéticos podem causar epidermólise bolhosa; autoanticorpos contra BP180/BP230 causam penfigoide bolhoso, com separação subepidérmica.

31. Integrinas: adesão e sinalização

Integrinas são heterodímeros αβ que ligam matriz extracelular e citoesqueleto. Alternam entre estados de afinidade e transmitem sinais em dois sentidos:

  • inside-out: sinais intracelulares aumentam afinidade pela matriz/ligando;
  • outside-in: ligação externa regula sobrevivência, ciclo, diferenciação e migração.

Nem toda adesão por integrinas é hemidesmossoma. Adesões focais ligam integrinas à actina por talina, vinculina e outras proteínas; hemidesmossomas ligam α6β4 a queratina. Nas plaquetas, αIIbβ3 liga fibrinogénio; a sua ausência ou disfunção causa trombastenia de Glanzmann, mas esta integrina não pertence a um hemidesmossoma.

32. Interdigitações

Interdigitações são pregas complementares das membranas de células vizinhas. Aumentam área de contacto, estabilidade e superfície para transporte. São comuns em epitélios que movimentam grandes quantidades de iões/água. Pregas basais associadas a mitocôndrias formam o “labirinto basal” de células transportadoras.

33. Junções septadas

As junções septadas são características de muitos invertebrados e apresentam traves transversais em aspeto de escada. Funcionam como barreiras paracelulares análogas, mas não molecularmente idênticas, às junções apertadas dos vertebrados. Em insetos, claudinas do tipo septate junction e outras proteínas estabelecem a barreira em posição mais basal do que a zonula occludens vertebrada.


Parte VIII — Integração

34. Integração estrutural da superfície celular

  1. Citoesqueleto cortical: a actina forma microvilosidades, estereocílios, cinturões aderentes e adesões focais; os filamentos intermédios ligam desmossomas e hemidesmossomas.
  2. Estruturas microtubulares: microtúbulos e dineínas formam cílios e flagelos.
  3. Biogénese no RE: as proteínas transmembranares adquirem topologia; o lado luminal torna-se extracelular.
  4. Maturação no Golgi: os glicanos do glicocálix são modificados e as proteínas são enviadas para o domínio correto.
  5. Organização à superfície: lípidos, proteínas e glicanos distribuem-se por domínios, projeções e junções funcionais.

35. Erros frequentes

  • “Microvilosidade e cílio são sinónimos.” A primeira usa actina; o segundo, microtúbulos.
  • “Estereocílio é um cílio imóvel.” É uma microvilosidade longa baseada em actina.
  • “Todo o cílio 9+0 é imóvel.” Cílios nodais 9+0 podem ser móveis.
  • “Flagelo bacteriano é um axonema simples.” Não contém microtúbulos e roda por gradiente iónico.
  • “DCP e Kartagener são equivalentes.” Kartagener é um subfenótipo de DCP com situs inversus.
  • “Tight junction é completamente impermeável.” A seletividade varia com claudinas.
  • “Ocludina é a única proteína selante.” Claudinas formam o núcleo dos cordões.
  • “Cólera rompe simplesmente a junção apertada.” O mecanismo central é AMPc/PKA/CFTR e secreção iónica.
  • “Junção aderente liga-se a queratina.” Liga-se a actina; o desmossoma liga-se a queratina.
  • “Pênfigo separa epiderme da derme.” Produz acantólise intraepidérmica.
  • “Hemidesmossoma é metade de um desmossoma.” É uma estrutura molecularmente distinta de adesão célula-matriz.
  • “Conexão e conexina são iguais.” Seis conexinas formam um conexão.
  • “Todas as integrinas ligam filamentos intermédios.” A maioria das adesões focais liga actina; α6β4 liga queratina no hemidesmossoma.

36. Resumo de alto rendimento

  1. Domínios apical, lateral e basal possuem composições diferentes.
  2. Microvilosidades são feixes de actina com extremidades + na ponta.
  3. O glicocálix é PAS-positivo e sustenta proteção, digestão e reconhecimento.
  4. EPEC apaga microvilosidades e constrói pedestais de actina.
  5. Cílios móveis 9+2 usam dineína; corpúsculos basais têm nove tripletos.
  6. Nexina e ancoragem convertem deslizamento em curvatura.
  7. DNAH5/DNAI1 podem causar DCP; Kartagener é apenas um subgrupo.
  8. Cílios primários são plataformas sensoriais e explicam ciliopatias multissistémicas.
  9. Estereocílios são baseados em actina; flagelos bacterianos são motores rotatórios.
  10. Junções apertadas funcionam como barreira e cerca.
  11. Claudinas determinam grande parte da seletividade paracelular.
  12. Toxina colérica liga GM1, viaja para RE e ativa Gsα–AMPc–PKA–CFTR.
  13. E-caderina liga actina; a sua perda favorece carcinoma difuso.
  14. Desmogleínas/desmocolinas ligam queratinas através da placa desmossómica.
  15. Pênfigo é intraepidérmico; penfigoide/hemidesmossoma é subepidérmico.
  16. Seis conexinas formam um conexão; dois conexões formam um canal de hiato.
  17. Gap junctions passam iões e moléculas pequenas, não macromoléculas.
  18. Hemidesmossomas usam α6β4 e queratina para ancorar à lâmina basal.

Resumo escrito por estudantes para apoio ao estudo. Não substitui a bibliografia nem as indicações dos docentes da unidade curricular.