Superfície celular: especializações e complexos de união
1. A superfície celular é uma interface organizada
A membrana plasmática é o elemento comum à superfície de todas as células. Contudo, “superfície” não significa uma bicamada homogénea. A distribuição de lípidos, proteínas, glicanos e elementos do citoesqueleto cria domínios especializados que permitem absorção, secreção, movimento, adesão, comunicação e resistência mecânica.
Numa célula epitelial polarizada distinguem-se:
- domínio apical: voltado para o lúmen ou exterior; pode conter microvilosidades, cílios e glicocálix;
- domínio lateral: contacta células vizinhas; contém complexos de união e interdigitações;
- domínio basal: contacta a lâmina basal; contém hemidesmossomas, adesões focais e transportadores especializados.
As junções apertadas limitam a difusão entre os domínios apical e basolateral. Esta polaridade permite, por exemplo, que um transportador importe um soluto no polo apical e outro o exporte no polo basal, produzindo transporte vetorial através do epitélio.
Parte I — Microvilosidades e glicocálix
2. Microvilosidades: ampliar sem aumentar o volume
As microvilosidades são projeções digitiformes da membrana sustentadas por feixes paralelos de actina. Aumentam muito a área superficial sem obrigar a aumentar proporcionalmente o volume celular. São particularmente abundantes em:
- enterócitos do intestino delgado, onde formam o prato estriado;
- túbulos proximais renais, onde formam uma bordadura em escova;
- epitélio da vesícula biliar e outros epitélios de absorção.
Uma microvilosidade típica mede aproximadamente 1–2 µm de comprimento e cerca de 0,1 µm de diâmetro. Milhares de microvilosidades regularmente alinhadas produzem, em microscopia ótica, uma faixa apical contínua. Não deve ser confundida com cílios: a microvilosidade é mais curta, não possui axonema e o seu eixo é actina, não microtúbulos.
3. Glicocálix e reação PAS
O glicocálix é a camada rica em hidratos de carbono voltada para o exterior da membrana. Resulta de:
- N- e O-glicanos de glicoproteínas;
- glicolípidos;
- proteoglicanos;
- mucinas secretadas ou membranares.
A reação PAS (Periodic Acid–Schiff) oxida grupos vicinais dos açúcares e produz coloração magenta. Por isso, o prato estriado e o muco das células caliciformes são PAS-positivos.
No intestino, o glicocálix:
- protege a membrana contra agressão mecânica e química;
- sustenta enzimas de digestão terminal, como dissacaridases e peptidases;
- organiza transportadores;
- participa na interação com microbiota e agentes patogénicos;
- cria uma barreira hidratada acima da membrana.
4. Arquitetura molecular da microvilosidade
Cada microvilosidade contém um feixe central de cerca de 20–30 filamentos de actina paralelos. A organização inclui:
- fimbrina/plastina, vilina e espina: agrupam os filamentos;
- miosina-1 e calmodulina: ligam lateralmente o feixe à membrana;
- espectrina, miosina II e filamentos de actina: formam a teia terminal abaixo da superfície;
- proteínas do complexo terminal: organizam crescimento e estabilidade na ponta.
O feixe prolonga-se para a teia terminal, que distribui força e mantém a regularidade do prato estriado. A membrana não é apenas “colocada” sobre o feixe: está mecanicamente ligada a ele.
5. Polaridade da actina
A actina G polimeriza em actina F polarizada. Nas microvilosidades:
- as extremidades farpadas (+) orientam-se para a ponta;
- as extremidades pontiagudas (−) orientam-se para a base/teia terminal.
Esta orientação favorece incorporação de actina na ponta. A estrutura adulta pode parecer estável, mas existe renovação regulada de subunidades e proteínas associadas. A polaridade também determina a direção de miosinas que transportam componentes ao longo do feixe.
6. Lesão e remodelação patológica
6.1 Atrofia microvilositária
A diminuição do número ou altura das microvilosidades reduz a área absortiva e a densidade de enzimas/transportadores. Pode causar diarreia e má absorção. Na doença de inclusão microvilositária congénita, variantes de MYO5B ou genes relacionados perturbam tráfego apical e formação do bordo em escova.
6.2 Escherichia coli enteropatogénica
EPEC forma lesões de “adesão e apagamento”:
- adere ao enterócito;
- um sistema de secreção tipo III injeta efetores;
- o recetor Tir é inserido na membrana do hospedeiro;
- a adesina bacteriana intimina liga Tir;
- vias celulares recrutam N-WASP/Arp2/3 e polimerizam actina;
- forma-se um pedestal de actina sob a bactéria;
- microvilosidades vizinhas são apagadas.
6.3 Shigella
Shigella induz pregas e pseudópodes ricos em actina para entrar na célula. Depois usa IcsA, N-WASP e Arp2/3 para formar caudas de actina e disseminar-se entre células. EPEC e Shigella exploram a mesma matéria-prima — actina — mas com arquiteturas e finalidades distintas.
Parte II — Cílios, flagelos e estereocílios
7. Distribuição e funções
Os cílios são projeções membranares com esqueleto de microtúbulos. Podem:
- deslocar muco no epitélio respiratório;
- contribuir para transporte no aparelho reprodutor feminino;
- movimentar líquido cefalorraquidiano em epitélios especializados;
- funcionar como antenas sensoriais e plataformas de sinalização.
O flagelo do espermatozoide é uma versão longa e altamente especializada de um cílio móvel. A diferença “cílio curto/flagelo longo” é morfológica; ambos partilham o axonema eucariótico.
8. Axonema e corpúsculo basal
8.1 Cílio móvel canónico
O axonema 9+2 possui:
- nove dupletos periféricos de microtúbulos;
- dois microtúbulos centrais;
- braços de dineína externos e internos;
- raios radiais;
- ligações de nexina/complexo regulador entre dupletos;
- membrana plasmática envolvente.
Cada dupleto contém um microtúbulo A completo e um B incompleto. A base do cílio é o corpúsculo basal, derivado de um centríolo, com nove tripletos e sem par central. Entre corpúsculo basal e axonema existe uma zona de transição que controla entrada de proteínas.
8.2 Cauda do espermatozoide
Além do axonema, contém fibras densas externas. Na peça intermédia, mitocôndrias envolvem o complexo; na peça principal existe bainha fibrosa. Estas estruturas adaptam rigidez, produção energética e forma de onda.
9. Dineína axonemal e curvatura
- A dineína está ancorada no microtúbulo A de um dupleto.
- O domínio motor liga o microtúbulo B do dupleto adjacente.
- Hidrólise de ATP gera deslocamento relativo.
- Se os dupletos estivessem livres, deslizariam.
- Nexina, raios radiais e ancoragem basal limitam deslizamento.
- A força converte-se em curvatura.
- Ativação espacial e temporal coordenada de diferentes dineínas produz a onda de batimento.
A dineína axonemal não é idêntica à dineína citoplasmática de transporte, embora pertençam à mesma família de motores dirigidos para a extremidade menos.
10. Cílio primário e transporte intraflagelar
A maioria das células possui um cílio primário, geralmente 9+0 e não móvel. Atua em vias como Hedgehog, PDGF e mecanossensação. A montagem exige transporte intraflagelar (IFT):
- cinesina-2 transporta material para a ponta;
- dineína-2 efetua transporte retrógrado;
- a zona de transição funciona como barreira seletiva.
Há exceções ao esquema simples: cílios nodais embrionários podem ser 9+0 e móveis; cílios sensoriais podem possuir arquiteturas especializadas.
11. Discinesia ciliar primária
A discinesia ciliar primária (DCP) é geneticamente heterogénea. Variantes de DNAH5 e DNAI1, componentes dos braços externos de dineína, são causas clássicas. O batimento ausente ou descoordenado provoca:
- infeções respiratórias recorrentes;
- tosse húmida crónica e bronquiectasias;
- rinossinusite e otite média;
- infertilidade masculina por disfunção flagelar;
- fertilidade feminina reduzida em alguns casos;
- defeitos de lateralidade.
O fluxo nodal embrionário ajuda a quebrar simetria esquerda-direita. Se falhar, a lateralidade pode tornar-se aleatória; cerca de metade dos doentes com certas formas apresenta situs inversus. A tríade situs inversus, sinusite crónica e bronquiectasias é chamada síndrome de Kartagener, mas nem toda DCP é Kartagener.
12. Ciliopatias
“Ciliopatia” abrange doenças de cílios móveis e/ou primários. O fenótipo depende do módulo afetado:
- cílios móveis: depuração mucociliar, fertilidade e lateralidade;
- cílios primários: rim, retina, cérebro, esqueleto, metabolismo e desenvolvimento;
- proteínas partilhadas: combinações multissistémicas.
Exemplos incluem doença renal poliquística, nefronoftise, síndrome de Bardet-Biedl, síndrome de Joubert e algumas distrofias retinianas. A pleiotropia resulta de reutilização da mesma organela em muitos tecidos.
13. Flagelo bacteriano: analogia, não identidade
O flagelo bacteriano não contém actina, tubulina nem dineína. É constituído por:
- filamento de flagelina;
- gancho flexível;
- corpo basal com anéis e motor rotatório;
- fluxo de H+ ou, nalgumas espécies, Na+ como fonte de energia.
O motor roda o filamento como uma hélice. O flagelo eucariótico curva-se por deslizamento de microtúbulos dependente de ATP. São soluções evolutivas e moleculares distintas para locomoção.
14. Estereocílios
Estereocílios são microvilosidades longas e imóveis, não cílios verdadeiros. Contêm feixes de actina e ocorrem:
- nas células ciliadas do ouvido interno, onde a deflexão abre canais mecanossensíveis;
- no epidídimo, onde aumentam absorção e secreção.
| Estrutura | Citoesqueleto | Movimento | Exemplo |
|---|---|---|---|
| Microvilosidade | actina | geralmente não | intestino |
| Estereocílio | actina | deflexão passiva | ouvido interno |
| Cílio móvel | microtúbulos 9+2 | dineína + ATP | via respiratória |
| Cílio primário | microtúbulos, geralmente 9+0 | geralmente não | sensor celular |
| Flagelo espermático | axonema + acessórios | dineína + ATP | espermatozoide |
| Flagelo bacteriano | flagelina/motor basal | rotação por gradiente iónico | bactéria |
Parte III — Complexos de união
15. Organização geral
Num epitélio, as junções tendem a ordenar-se do polo apical para a base:
- zonula occludens ou junção apertada;
- zonula adherens ou junção aderente;
- desmossomas pontuais ao longo da face lateral;
- junções de hiato em regiões de comunicação;
- hemidesmossomas no domínio basal.
“Zonula” significa uma cintura contínua; “macula” designa um ponto. As junções não são apenas cola: integram barreira, mecanotransdução, polaridade e sinalização.
16. Quadro comparativo
| Junção | Ligação | Proteínas transmembranares | Citoesqueleto | Função dominante |
|---|---|---|---|---|
| Apertada | célula-célula | claudinas, ocludina, JAM, tricelulina | actina via ZO | barreira e cerca |
| Aderente | célula-célula | caderinas clássicas | actina | tensão e morfogénese |
| Desmossoma | célula-célula | desmogleína, desmocolina | filamentos intermédios | resistência mecânica |
| Hiato | célula-célula | conexinas | sem ancoragem estrutural principal | comunicação direta |
| Hemidesmossoma | célula-matriz | integrina α6β4, colagénio XVII | filamentos intermédios | ancoragem à lâmina basal |
Parte IV — Junções apertadas
17. Localização e ultraestrutura
Na barreira hematoencefálica, células endoteliais contínuas possuem junções apertadas especialmente restritivas, apoiadas por pericitos, membrana basal e pés de astrócitos. A baixa permeabilidade paracelular obriga muitos solutos a usar transportadores transcelulares.
Em corte transversal, as membranas parecem aproximar-se em pontos de “beijo”. Na criofratura, observam-se cordões ramificados que circundam a célula. O número e composição dos cordões influenciam resistência e seletividade, mas mais cordões não equivalem automaticamente a impermeabilidade absoluta.
18. Duas funções: gate e fence
18.1 Função de barreira (gate)
Regula passagem paracelular de água, iões e solutos. Não é uma parede invariavelmente hermética: diferentes claudinas criam barreiras ou poros seletivos por carga/tamanho. Intestino e túbulo renal necessitam permeabilidade regulada; bexiga e barreira hematoencefálica são mais restritivas.
18.2 Função de cerca (fence)
Limita difusão lateral de lípidos e proteínas entre membranas apical e basolateral, ajudando a conservar polaridade.
19. Componentes moleculares
Claudinas
As claudinas constituem uma família com cerca de 27 membros humanos e possuem quatro segmentos transmembranares. As ansas extracelulares interagem com claudinas da célula vizinha e determinam seletividade. Algumas são “selantes”; outras formam poros paracelulares seletivos.
Ocludina
Também possui quatro passagens. Modula estabilidade, sinalização e resposta a stress. Não é suficiente nem absolutamente necessária para formar todos os cordões, o que explica por que as claudinas são consideradas o núcleo estrutural.
JAM
As junctional adhesion molecules pertencem à superfamília das imunoglobulinas e participam na montagem, polaridade e tráfego de leucócitos.
Tricelulina e angulinas
Nos pontos onde três células se encontram existe uma via paracelular potencialmente maior. Angulinas marcam o vértice tricelular e recrutam tricelulina para selar o contacto.
Proteínas ZO
ZO-1, ZO-2 e ZO-3 são adaptadores com domínios PDZ que ligam proteínas transmembranares à actina e a complexos de sinalização. A junção é, assim, uma plataforma mecanossensível e dinâmica.
20. Doenças associadas a claudinas
- Claudina-16: variantes em `CLDN16` causam hipomagnesemia familiar com hipercalciúria e nefrocalcinose. No ramo ascendente espesso, a via paracelular de Mg²⁺/Ca²⁺ fica comprometida.
- Claudina-14: variantes bialélicas em `CLDN14` podem causar surdez neurossensorial autossómica recessiva por alteração da homeostase iónica no ouvido interno.
A diversidade de fenótipos mostra que as claudinas não são intercambiáveis.
21. Toxina colérica
21.1 Mecanismo passo a passo
- A toxina AB5 liga o gangliósido GM1 na face apical do enterócito.
- É endocitada e segue transporte retrógrado para Golgi e RE.
- A subunidade A1 usa a maquinaria de controlo de qualidade/retrotranslocação para alcançar o citosol.
- A1 ADP-ribosila a subunidade Gsα.
- Gsα fica persistentemente ativa e estimula adenilato ciclase.
- Aumenta AMPc e ativa PKA.
- PKA aumenta abertura de CFTR e secreção de Cl⁻/HCO3⁻.
- Diminui absorção de Na⁺, incluindo por regulação de NHE3.
- Água acompanha o gradiente osmótico para o lúmen.
- Surge diarreia aquosa volumosa, com risco de desidratação e choque.
A toxina não precisa de destruir fisicamente as junções apertadas para gerar o fluxo. Altera transporte transcelular, enquanto as vias paracelulares e a permeabilidade epitelial influenciam o movimento de água/eletrólitos.
21.2 Por que funciona a solução de reidratação oral?
O cotransportador apical SGLT1 continua capaz de absorver glucose e Na⁺. Uma solução com proporções adequadas de glucose e sais promove absorção de Na⁺ e água apesar do AMPc elevado. O tratamento fundamental é reidratação oral; casos graves requerem reposição intravenosa rápida e cuidados clínicos. Antibióticos e zinco pediátrico dependem da gravidade e de protocolos locais.
22. Exemplo epidemiológico: cólera em Moçambique
O conjunto de dados analisado regista, para Moçambique, 2267 casos entre 28 de janeiro e 25 de fevereiro de 2026. Este valor é uma fotografia temporal e não deve ser usado como contagem atual permanente. A prevenção depende de água segura, saneamento, higiene, vigilância, vacinação oral em contextos indicados e acesso rápido a reidratação.
Parte V — Junções aderentes e desmossomas
23. Zonula adherens
A junção aderente é um cinturão abaixo da junção apertada. A E-caderina:
- é uma proteína transmembranar dependente de Ca²⁺;
- estabelece ligações homofílicas com E-caderina da célula vizinha;
- liga p120-catenina e β-catenina;
- associa-se à α-catenina, vinculina e actina sob tensão;
- transmite forças entre células.
O cinturão de actomiosina controla forma celular, invaginação, convergência e extensão de tecidos. Caderinas também influenciam sinalização; β-catenina pode participar na via Wnt, embora a sua fração juncional e sinalizadora sejam reguladas de forma distinta.
24. E-caderina e tumor gástrico difuso
A ausência ou redução de marcação membranar indica perda de expressão, localização ou função de E-caderina. Em carcinoma gástrico difuso, alterações de CDH1 podem reduzir coesão e favorecer células isoladas ou em anel de sinete que infiltram a parede. A imagem isolada não define o mecanismo — pode haver mutação, silenciamento epigenético, processamento ou internalização —, mas o fenótipo é compatível com perda de adesão.
25. Desmossoma
O desmossoma é uma adesão pontual resistente à tração:
- desmogleínas e desmocolinas: caderinas desmossómicas transmembranares;
- plakoglobina e plakofilinas: placa adaptadora;
- desmoplaquina: liga a placa aos filamentos intermédios;
- queratinas: distribuem força pelo epitélio.
É abundante em tecidos sujeitos a stress, como epiderme e miocárdio. Na camada espinhosa, retração artefatual entre queratinócitos preserva pontes desmossómicas e produz o aspeto “espinhoso”.
26. Pênfigo: perda de adesão desmossómica
No pênfigo, autoanticorpos contra desmogleínas comprometem adesão entre queratinócitos e causam acantólise:
- pênfigo vulgar: frequentemente anti-desmogleína 3, com ou sem anti-Dsg1; clivagem suprabasal e envolvimento mucoso frequente;
- pênfigo foliáceo: sobretudo anti-Dsg1; clivagem mais superficial.
Correção conceptual: o pênfigo provoca bolha intraepidérmica, não separação entre epiderme e derme. A separação subepidérmica é mais característica de penfigoide bolhoso ou defeitos da junção dermoepidérmica/hemidesmossoma.
Parte VI — Junções de hiato
27. Estrutura
Uma junção de hiato permite continuidade aquosa regulada entre citoplasmas:
- seis conexinas oligomerizam num conexão ou hemicanal;
- um conexão de cada célula alinha-se no espaço intercelular;
- os dois formam um canal completo;
- muitos canais agregam-se numa placa juncional.
Passam iões e pequenas moléculas, geralmente abaixo de cerca de 1–1,5 kDa, como:
- Ca²⁺ e outros iões;
- AMPc e IP3;
- ATP e metabolitos pequenos;
- açúcares e aminoácidos selecionados.
Não passam proteínas ou ácidos nucleicos inteiros. A seletividade depende da isoforma e combinação de conexinas. Alterações de voltagem, pH, Ca²⁺ citosólico e fosforilação regulam abertura; aumento intenso de Ca²⁺ ou acidificação pode fechar canais e isolar uma célula lesada.
28. Função fisiológica
As junções de hiato permitem:
- sincronização elétrica de cardiomiócitos e músculo liso;
- propagação de sinais metabólicos;
- coordenação de epitélios;
- partilha de metabolitos entre células de suporte e células germinativas.
Uma junção de hiato comunica; não foi concebida para suportar carga mecânica como desmossoma.
29. Complexo cúmulo-ovócito
O ovócito está separado das células do cúmulo pela zona pelúcida, mas prolongamentos transzonais contactam a sua membrana. Junções de hiato transferem metabolitos, nucleótidos e sinais que sustentam crescimento e controlo meiótico. De forma simplificada:
- conexina 43 é importante na comunicação entre células da granulosa/cúmulo;
- conexina 37 participa na interface ovócito-cúmulo em modelos mamíferos;
- cGMP proveniente das células somáticas ajuda a manter o ovócito em paragem meiótica;
- o pico de LH reduz essa comunicação/sinalização e permite retoma da meiose.
Defeitos de conexinas podem, portanto, afetar maturação ovocitária e fertilidade.
Parte VII — Hemidesmossomas, integrinas e interdigitações
30. Hemidesmossoma
O hemidesmossoma liga a célula à matriz, não a outra célula. Componentes principais:
- integrina α6β4: recetor para laminina-332;
- colagénio XVII/BP180: proteína transmembranar;
- plectina e BP230: placa intracelular;
- queratinas: filamentos intermédios;
- laminina-332 e colagénio VII: ligação à lâmina basal e tecido conjuntivo.
Defeitos genéticos podem causar epidermólise bolhosa; autoanticorpos contra BP180/BP230 causam penfigoide bolhoso, com separação subepidérmica.
31. Integrinas: adesão e sinalização
Integrinas são heterodímeros αβ que ligam matriz extracelular e citoesqueleto. Alternam entre estados de afinidade e transmitem sinais em dois sentidos:
- inside-out: sinais intracelulares aumentam afinidade pela matriz/ligando;
- outside-in: ligação externa regula sobrevivência, ciclo, diferenciação e migração.
Nem toda adesão por integrinas é hemidesmossoma. Adesões focais ligam integrinas à actina por talina, vinculina e outras proteínas; hemidesmossomas ligam α6β4 a queratina. Nas plaquetas, αIIbβ3 liga fibrinogénio; a sua ausência ou disfunção causa trombastenia de Glanzmann, mas esta integrina não pertence a um hemidesmossoma.
32. Interdigitações
Interdigitações são pregas complementares das membranas de células vizinhas. Aumentam área de contacto, estabilidade e superfície para transporte. São comuns em epitélios que movimentam grandes quantidades de iões/água. Pregas basais associadas a mitocôndrias formam o “labirinto basal” de células transportadoras.
33. Junções septadas
As junções septadas são características de muitos invertebrados e apresentam traves transversais em aspeto de escada. Funcionam como barreiras paracelulares análogas, mas não molecularmente idênticas, às junções apertadas dos vertebrados. Em insetos, claudinas do tipo septate junction e outras proteínas estabelecem a barreira em posição mais basal do que a zonula occludens vertebrada.
Parte VIII — Integração
34. Integração estrutural da superfície celular
- Citoesqueleto cortical: a actina forma microvilosidades, estereocílios, cinturões aderentes e adesões focais; os filamentos intermédios ligam desmossomas e hemidesmossomas.
- Estruturas microtubulares: microtúbulos e dineínas formam cílios e flagelos.
- Biogénese no RE: as proteínas transmembranares adquirem topologia; o lado luminal torna-se extracelular.
- Maturação no Golgi: os glicanos do glicocálix são modificados e as proteínas são enviadas para o domínio correto.
- Organização à superfície: lípidos, proteínas e glicanos distribuem-se por domínios, projeções e junções funcionais.
35. Erros frequentes
- “Microvilosidade e cílio são sinónimos.” A primeira usa actina; o segundo, microtúbulos.
- “Estereocílio é um cílio imóvel.” É uma microvilosidade longa baseada em actina.
- “Todo o cílio 9+0 é imóvel.” Cílios nodais 9+0 podem ser móveis.
- “Flagelo bacteriano é um axonema simples.” Não contém microtúbulos e roda por gradiente iónico.
- “DCP e Kartagener são equivalentes.” Kartagener é um subfenótipo de DCP com situs inversus.
- “Tight junction é completamente impermeável.” A seletividade varia com claudinas.
- “Ocludina é a única proteína selante.” Claudinas formam o núcleo dos cordões.
- “Cólera rompe simplesmente a junção apertada.” O mecanismo central é AMPc/PKA/CFTR e secreção iónica.
- “Junção aderente liga-se a queratina.” Liga-se a actina; o desmossoma liga-se a queratina.
- “Pênfigo separa epiderme da derme.” Produz acantólise intraepidérmica.
- “Hemidesmossoma é metade de um desmossoma.” É uma estrutura molecularmente distinta de adesão célula-matriz.
- “Conexão e conexina são iguais.” Seis conexinas formam um conexão.
- “Todas as integrinas ligam filamentos intermédios.” A maioria das adesões focais liga actina; α6β4 liga queratina no hemidesmossoma.
36. Resumo de alto rendimento
- Domínios apical, lateral e basal possuem composições diferentes.
- Microvilosidades são feixes de actina com extremidades + na ponta.
- O glicocálix é PAS-positivo e sustenta proteção, digestão e reconhecimento.
- EPEC apaga microvilosidades e constrói pedestais de actina.
- Cílios móveis 9+2 usam dineína; corpúsculos basais têm nove tripletos.
- Nexina e ancoragem convertem deslizamento em curvatura.
- DNAH5/DNAI1 podem causar DCP; Kartagener é apenas um subgrupo.
- Cílios primários são plataformas sensoriais e explicam ciliopatias multissistémicas.
- Estereocílios são baseados em actina; flagelos bacterianos são motores rotatórios.
- Junções apertadas funcionam como barreira e cerca.
- Claudinas determinam grande parte da seletividade paracelular.
- Toxina colérica liga GM1, viaja para RE e ativa Gsα–AMPc–PKA–CFTR.
- E-caderina liga actina; a sua perda favorece carcinoma difuso.
- Desmogleínas/desmocolinas ligam queratinas através da placa desmossómica.
- Pênfigo é intraepidérmico; penfigoide/hemidesmossoma é subepidérmico.
- Seis conexinas formam um conexão; dois conexões formam um canal de hiato.
- Gap junctions passam iões e moléculas pequenas, não macromoléculas.
- Hemidesmossomas usam α6β4 e queratina para ancorar à lâmina basal.
Resumo escrito por estudantes para apoio ao estudo. Não substitui a bibliografia nem as indicações dos docentes da unidade curricular.